domingo, 2 de março de 2014

Prisão festejada não freia guerra mexicana

Resenha EB / O Globo / Elisa Martins
02 Mar 2014

Sequestros, extorsões e cobrança de pedágios por cartéis impõem novo desafio ao governo Peña Nieto

Em Sinaloa, no Norte do México, é comum chamar de "chapo" um parente ou amigo de baixa estatura. Vem daí o apelido do mais famoso dos "chapos" mexicanos. Com seus 1,65m de altura, Joaquín "El Chapo" Guzmán levantou o mais poderoso cartel do país e se impôs como o traficante mais procurado do mundo - até ser preso semana passada numa operação histórica. A detenção marcou uma conquista indiscutível para o governo mexicano. Mas não altera a dinâmica da guerra interna relacionada ao narcotráfico. O cartel de Sinaloa representa um modelo certamente eficiente, mas antigo, de comércio de drogas. Outros estilos emergiram nos últimos anos e tornaram as organizações criminosas mexicanas muito mais complexas.

Boa parte da violência hoje ligada ao narcotráfico no país deriva da ação de braços armados dos grandes cartéis dos anos 1980. Sem capacidade de montar uma estrutura de grande porte no mercado das drogas, a exemplo dos cartéis de Sinaloa ou Pacífico - também aglutinado pelo poderio de Chapo -, eles expandiram as atividades para sequestros, extorsões e cobranças de pedágios à população local e imigrantes. É um recente e complicado desafio para o governo mexicano.

- Chapo era um traficante, e seu cartel ainda é uma multinacional do narcotráfico, não necessariamente envolvido em outras atividades criminosas. Seu objetivo é minimizar o risco e maximizar o processo, a violência é o último recurso. Já os Zetas, Cavaleiros Templários ou Jalisco Nova Geração têm outras regras para controlar o território: se impõem com ameaças e impostos forçados - destacou ao GLOBO Antonio Mazzitelli, representante do Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC) para o México.

- Houve uma diminuição do consumo da cocaína nos EUA e uma consequente redução dos lucros para os traficantes tradicionais, que passaram a disputar rotas de drogas num mercado reduzido. Para isso, criaram grupos armados paramilitares. Os Zetas surgiram do cartel do Golfo, a Família Michoacana, do cartel de Sinaloa. Mas esses grupos se tornaram independentes e com o tempo absorveram rotas de distribuição - explica Mazzitelli.

Disputa de rotas de drogas a curto prazo

O ex-presidente Felipe Calderón (2006-2012) colocou o combate ao narcotráfico no foco de governo. Mas sua aposta por priorizar o Exército nas ruas e o confronto direto causou, além de muita polêmica, mais de 80 mil mortes. Enrique Peña Nieto disse que mudaria radicalmente de estratégia ao assumir a Presidência, em dezembro de 2012. Em parte foi marketing, mas certas mudanças renderam frutos.

- Os lugares onde os confrontos têm diminuído são onde a reforma das polícias municipais e estatais avançou de forma contundente. Outras frentes importantes têm sido os programas de prevenção da violência e investimento social, para recuperar os territórios - opina Mazzitelli.

No caso de Chapo Guzmán, mais atores pesaram: o Grupo de Alvos Estratégicos, um comando especializado da Marinha criado em 2010, e o serviço de Inteligência dos EUA, que agiram juntos na detenção em Mazatlán, no estado de Sinaloa. O Chapo era o criminoso mais procurado pelo governo americano desde a morte de Osama bin Laden, em 2011. Com o chefão atrás das grades, entre dúvidas sobre sua extradição aos EUA e o impacto real em seu cartel, emerge outra ameaça a curto prazo.

- É provável que nessa reacomodação de poder surja uma onda local de violência. O sucessor natural seria Ismael Zambada, mas parece que os filhos do Chapo pretendem disputar a liderança. Outras organizações também podem aproveitar esse vazio para disputar rotas. Ainda é cedo para saber - disse ao GLOBO o especialista em segurança Raúl Benítez Manaut, da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam).

Ao ser capturado, aos 57 anos, Chapo pouco lembrava aquele que virou um personagem do folclore mexicano. Estava foragido desde 2001, quando fugiu de uma prisão de segurança máxima em Jalisco. A versão oficial é que escapou escondido num carrinho de lavanderia, mas há quem diga que saiu pela porta da frente, vestido de policial e com o aval de figurões da política e do Judiciário.

Ele era o rei dos túneis subterrâneos, mas não dispensava idas eventuais a restaurantes. Com uma escolta de dezenas de homens, recolhia os celulares dos clientes para não ser surpreendido numa emboscada. No Norte do México, a população o idolatra. Na semana passada houve até protesto nas ruas por sua libertação.

- A captura do Chapo vivo é muito importante, porque o governo pode negociar condições carcerárias e judiciais em troca de informações. Se ele falar, será mais um golpe contra o cartel de Sinaloa. Muitos empresários e políticos protegiam o Chapo. Agora devem estar tremendo de medo de serem descobertos - diz Benítez Manaut.
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