quarta-feira, 5 de março de 2014

Incerteza na Ucrânia pode respingar no Brasil

Resenha EB / Valor Econômico / Lucinda Pinto, José de Castro, Carolina Mandl e Sérgio Lamucci
05 Mar 2014

O mercado financeiro brasileiro volta a funcionar hoje sob a sombra da crise na Ucrânia. Enquanto bolsa, juros e câmbio permaneceram fechados nos dois últimos dias em função do feriado de carnaval, os mercados internacionais oscilaram com nervosismo, ao sabor das expectativas em relação a uma invasão na Crimeia pela Rússia. Para especialistas, há chances de que os problemas respinguem no Brasil. Mas ponderam que o impacto tem diversos atenuantes.

Para o diretor da Nomura Securities, Tony Volpon, as tensões devem trazer de volta aos mercados emergentes um clima de aversão ao risco e afetar ativos de várias outras praças, inclusive no Brasil. A instabilidade, diz, deve ser encarada por investidores como mais um elemento que coloca em xeque a visão estabelecida nos últimos anos de que essas economias alcançaram um nível de maturidade institucional. "Turquia, Tailândia, Venezuela e, agora, Rússia colocam em dúvida a convicção de que esses países estavam, de fato, emergindo", afirma. "Por associação, o investidor vai olhar com cautela para o Brasil, que vai passar por um processo eleitoral."

Ele diz que a decisão inesperada da Rússia de elevar a taxa de juros para 7% demonstra que os mercados em desenvolvimento ainda não são capazes de fazer uma política contracíclica, como se acreditou que seriam em 2008. "Em um país estruturado, desenvolvido, o juro cai em um momento de instabilidade", diz. Foi o que aconteceu em 2008, ano do ápice da crise internacional que culminou na quebra do Lehman Brothers, episódio que levou muitos países - inclusive o Brasil - a reduzir juros. "Agora, essa ideia foi abandonada. Brasil, Indonésia, Índia, Turquia, Rússia... todo mundo põe o pé no freio quando está perto de bater na parede. E isso aponta para menor crescimento."

Gustavo Loyola, sócio-diretor da consultoria Tendências e ex-presidente do Banco Central (BC), diz acreditar que, se a situação se agravar, o Brasil pode assistir nos próximos dias a um movimento "exarcebado" de venda de ativos. Depois disso, porém, os investidores podem começar a enxergar o país como um emergente diferente. "Esse tipo de conflito aumenta a aversão ao risco. Gera o 'flight to quality'", diz, em referência à fuga para ativos de maior qualidade. "Num primeiro momento, há uma reação exagerada. Só depois os investidores param para separar o joio do trigo."

Quando isso acontecer, Loyola afirma que os investidores podem ver o Brasil como um mercado com riscos diferentes daqueles que atingem Turquia, Venezuela e Rússia. "O que está em questão são problemas com países vizinhos, algo militar e geopolítico. É muito longe do Brasil", afirma. "A questão é saber qual tipo de análise prevalecerá depois da onda inicial de venda de ativos brasileiros. Tendo a dizer que o Brasil sofrerá menos."

Visão mais branda tem o diretor de pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos. Para ele, não há ainda indícios de um movimento de realocação de portfólio global capaz de gerar uma nova onda de volatilidade dos ativos. "Acredito que, se houver algum contágio, ele deve ficar restrito à região onde os eventos estão acontecendo", afirma. "Para o Brasil, o impacto deve ser pequeno." A estrategista de câmbio para a América Latina do Royal Bank of Scotland, Flavia Cattan-Naslausky, confirma essa avaliação e acredita que o impacto financeiro da crise ficará, por enquanto, concentrado no centro e leste da Europa, com Polônia, Hungria e até mesmo Áustria.

Segundo Flavia, a visão sobre os emergentes está longe de ser prejudicada apenas pela tensão na Ucrânia. "A China vem sendo motivo de preocupação há algum tempo. Quando você busca um tema comum em todo esse noticiário, você encontra a palavra 'emergente'. E, em momentos assim, é mais difícil o investidor analisar cada caso. Na dúvida, ele sai do bloco em geral", diz.

A estrategista chama atenção para o fato de a reação dos países estar muito voltada à política monetária, algo que tende a achatar ainda mais o crescimento num momento em que as condições de liquidez estão ficando menos favoráveis. A Rússia elevou sua taxa básica de juros de 5,5% para 7,0%, numa tentativa de conter a queda livre do rublo. Segundo Flavia, o Brasil tende a sofrer menos nesse contexto, porque já vem promovendo aperto monetário desde o ano passado e conseguiu melhorar a expectativa de investidores após o anúncio das metas fiscais. "Mas as dúvidas sobre o cumprimento das metas e a turbulência mais geral nos emergentes não vão poupar o Brasil, país ainda visto como um dos cinco frágeis."

O impacto sobre commodities deve ser limitado. Michal Dybula, economista-chefe para a Europa Central e do Leste do BNP Paribas, afirma que as tensões não devem se prolongar por muito tempo, limitando assim os efeitos sobre os preços do petróleo. Para ele, a Rússia vai buscar fortalecer ao máximo a sua posição na Ucrânia para ter uma situação de mais poder quando for negociar com as potências ocidentais. No entanto, esticar muito a crise teria custos econômicos e políticos que não interessam à Rússia.

O economista-chefe global da Capital Economics, Julian Jessop, também vê pouco espaço para uma alta forte dos preços do petróleo por causa da crise entre Rússia e Ucrânia. Segundo ele, parece não fazer sentido para as potências europeias aplicarem sanções à Rússia, já que boa parte dos países depende do gás natural do país, e a Alemanha e a Holanda são grandes compradoras do petróleo russo. Um conflito militar, diz, parece improvável.
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