sábado, 8 de fevereiro de 2014

Testamento para evitar rastros

Clipping MP / Correio Braziliense / ANA D"ANGELO
- 07/02/2014

Pizzolato registrou em cartório um pedido para manter a morte dele em sigilo, sem velórios, homenagens ou missa de sétimo dia

Em 24 de abril de 2009, Henrique Pizzolato, o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil condenado a quase 13 anos de prisão no processo do mensalão, fez um testamento público com um pedido para praticamente manter a sua morte em segredo. Nele, diz para não se realizar “velório, homenagens nem missa de sétimo dia”. Pede ainda que não seja feita “nenhuma divulgação da sua morte, comunicado ou anúncio de seu falecimento”. A justificativa foi de que não deseja que “pessoas fiquem enlutadas ou tristes”. Seu corpo deve ser cremado o mais rápido possível. E a cinzas jogadas ao mar, diz o documento.

Esse testamento, lavrado no 19º Ofício de Notas do Rio de Janeiro, então no Centro do Rio (hoje funciona na Barra da Tijuca), foi mais um ato do planejamento minucioso da fuga iniciado em 2006, como revelou o Correio no último domingo, quando Pizzolato começou a venda e transferência de quase todos os 11 imóveis conhecidos em seu nome.

No testamento, Pizzolato deixa para a mulher, Andrea Haas, a totalidade dos bens, incluindo dinheiro e outros valores que possuir à época da sua morte, respeitada a parte legal que cabe ao pai dele, hoje com 85 anos. Pizzolato lista, no entanto, como bem apenas a cobertura da Avenida Domingos Ferreira, em Copacabana, avaliada em quase R$ 4 milhões atualmente. Andrea ficará também com a pensão das aposentadorias Da Previ (o fundo de pensão dos funcionários do BB) e do INSS, que totalizam hoje em torno de R$ 20 mil.

Em 2009, Pizzolato já tinha vendido e transferido quase todos os imóveis, mas manteve a cobertura no nome dele para não chamar a atenção sobre uma possível fuga. Os primeiros foram negociados em 2006. No início daquele ano, ele se separou da mulher, Andreas, apenas no papel, para formalizar judicialmente a partilha de bens. Com isso, ele transferiu para o nome dela três dos quatro imóveis mais valiosos que ele tinha: um apartamento duplex também em Copacabana, de cerca de R$ 2,5 milhões, uma casa de alto padrão em Florianópolis (de R$ 2,5 milhões) e um apartamento também na capital catarinense de R$ 800 mil.

Ele vendeu ainda em 2006 dois apartamentos em Curitiba e um em São Leopoldo (RS). Outros dois no município gaúcho foram negociados em 2009. O apartamento onde mora o pai, em Concórdia (SC), continua registrado em seu nome, além de uma casa em Toledo, mas, conforme informações, já foram transferidos a terceiros.

Identidade

O testamento foi redigido pelo tabelião na presença de duas testemunhas, poucos dias depois que Pizzolato retornou da Europa, onde tirou um documento de identidade italiana no consulado da Itália em Madri, em 16 de abril de 2009. Nesse período, o processo do mensalão estava em fase de ouvir testemunhas. No ano seguinte, Pizzolato pediu e obteve um passaporte italiano, que foi retido em novembro de 2012 pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2010, segundo informou a Polícia Federal, ele solicitou visto de permanência na Espanha. Para a PF, isso indica que ele já podia estar pensando em fugir da Justiça desde aquele ano.

Já na Itália em outubro de 2013, ele registrou um boletim de ocorrência, comunicando que essa identidade italiana e outros pertences lhe foram furtados em uma estação de trem em Barcelona em 14 de setembro de 2013 — três dias depois de fugir do Brasil. Um amigo de Pizzolato, Alexandre Teixeira, chegou a dar a informação falsa de que ele teria escapado após obter autorização especial de viagem na embaixada italiana no Paraguai com essa identidade. Porém, a PF descobriu que ele fugiu usando o passaporte falso em nome do irmão morto.

Morto declara ao Fisco

A fuga de Henrique Pizzolato foi tão orquestrada em detalhes que ele não esqueceu de colocar o irmão morto Celso Pizzolato em dia com o Leão do Imposto de Renda, para conseguir emitir o passaporte brasileiro em 2008 em nome do falecido, depois que ele conseguiu cartão de CPF e título de eleitor. Consta nos cadastros da Receita Federal que Celso apresentou uma declaração de IR relativa ao ano-base de 2007 como isento. Nos demais anos, a declaração dele não aparece na base de dados da Receita, como de fato não deveria, pois já estava morto desde 1978.
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2014/2/7/testamento-para-evitar-rastros/?searchterm=

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