sábado, 1 de fevereiro de 2014

Submissões e divisões

O Estado de S. Paulo / Washington Post / Max Fisher / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
01 de fevereiro de 2014 | 1h 05

O que é a Ucrânia?

A Ucrânia tem uma longa história de sujeição a potências estrangeiras. Isto se reflete inclusive em seu nome, que muitos estudiosos acreditam possa significar "região limítrofe" sendo, em parte, chamada por isso "a Ucrânia" (outros estudiosos, entretanto, acreditam que significa "pátria"). O país só se tornou independente em 1991, com o colapso da União Soviética. A última vez em que foi independente (por poucos anos, logo depois da 1.ª Guerra; e antes disso, rapidamente nos anos 1600), teve diferentes fronteiras e uma população bastante diversificada. Este fato é muito importante.

Por que tantos ucranianos aderem aos protestos?

Os protestos começaram principalmente na capital Kiev, quando o presidente Yanukovich rejeitou um acordo que permitiria uma maior integração econômica com a União Europeia. O pacto tinha o apoio dos ucranianos, particularmente em Kiev.

Mas esta questão envolve muito mais do que apenas um acordo comercial. Simbolicamente, a decisão de Yanukovich foi considerada um gesto de menosprezo pela Europa e de aproximação a Moscou, que premiaria a Ucrânia com um "estímulo" de bilhões de dólares e a promessa de fornecimento de gás mais barato. Moscou subjugou ou governou diretamente a Ucrânia durante gerações, logo é fácil compreender que é uma questão extremamente sensível.

Entretanto, não se trata apenas de geopolítica. Desde sua chegada ao poder, Yanukovich e seu governo vêm administrando muito mal a economia e são vistos cada vez mais como corruptos. Em 2004, eclodiram protestos em massa contra o recém-eleito presidente num pleito amplamente suspeito de fraude. Estes protestos, que conseguiram impedir sua posse, receberam o nome de Revolução Laranja e foram importantes na época. Mas agora ele está de volta.

Na realidade, os protestos tinham praticamente perdido sua força até 16 de janeiro, quando Yanukovich assinou uma "lei antiprotestos" que também restringe consideravelmente a liberdade de expressão, a mídia, carreata de mais de cinco carros e até mesmo o uso de capacete. Os protestos se reavivaram com a finalidade de vingança, não apenas em Kiev, mas em várias capitais regionais, e a ocupação de edifícios do governo em algumas delas.

Ouvi dizer que os ucranianos queriam criar vínculos com a Europa, e que seu governo estava entregando o país a Moscou.

Isto é mais ou menos verdade - inúmeros ucranianos querem que o seu país se torne "europeu" e não mantenha laços com a Rússia, ao passo que Yanukovich flerta com Moscou -, mas também não é totalmente certo. De fato, cerca da metade dos ucranianos quer o acordo com a União Europeia. Entretanto, um terço da população prefere aderir à União Alfandegária Eurasiana dominada pelos russos.

Agora, é preciso entender uma coisa. A Ucrânia é um país dividido. Profundamente dividido pela língua, pela história e pela política. Um terço do país fala russo como sua primeira língua, e na prática muitos mais a usam no dia a dia. Os de língua russa vivem, na maior parte, no sul do país; os que falam ucraniano moram na outra parte.

Não se trata apenas do fato de a Ucrânia se constituída por duas metades que falam predominantemente línguas diferentes. Elas têm políticas diferentes - e diferentes visões para o seu país. A metade oriental da Ucrânia, de língua russa, é, evidentemente, mais pró-russa. Yanukovich é originário desta parte do país e recebe a maior parte do apoio deste lado do país. Ele sequer falava ucraniano até depois dos seus 50 anos.

Os protestos a favor do acordo com a UE ocorrem, em geral, na metade ocidental, de língua ucraniana. Esta é também a metade que votou predominantemente contra Yanukovich em 2010 (situação que mudou desde a lei contra os protestos, que provocou indignação em todo o país contra Yanukovich).

Esta divisão tem constituído um desafio para a Ucrânia desde que o país obteve a independência em 1991. Os resultados das eleições dividiram o país, empurrando-o em direções opostas. Como disse o cientista político Leonid Peisakhin, que estuda a Ucrânia, o país "nunca foi e ainda não é uma unidades nacional coerente com uma língua comum ou um conjunto de aspirações políticas mais ou menos Compartilhadas".

E porque a Ucrânia ficou tão dividida?

A Ucrânia foi conquistada e dividida durante séculos pelas potências vizinhas: poloneses, austríacos e acima de tudo russos. Mas os governantes russos não queriam apenas governar a Ucrânia, eles queriam torná-la russa.

A "russificação" da Ucrânia começou há 250 anos, com Catarina a Grande, que presidiu a "idade do ouro" da Rússia no final dos anos 1700. Inicialmente, ela controlava apenas a Ucrânia oriental, onde desenvolveu os setores do carvão e do ferro para alimentar a expansão da Rússia. Embora posteriormente também se apoderasse do lado ocidental, ela e os governantes russos concentraram-se predominantemente na parte oriental do país, que tem também uma das melhores terras produtivas do mundo.

Hoje, apenas um sexto da Ucrânia é etnicamente russo. Mas a marca cultural é muito mais profunda, e não apenas porque são tantos os ucranianos que falam russo como sua primeira língua. Quando o político nacionalista ucraniano, Viktor Yushchenko, pró-ocidental, se tornou presidente, em 2005, "cerca de 60% da programação da TV era em língua russa e 40% em língua ucraniana", segundo o Christian Science Monitor.

Quando terminou seu mandato, "esta proporção mal se invertera". A maioria das revistas e jornais continuava a ser publicada em russo. Isto ocorreu após cinco anos de uma "ucranização" tão agressiva que, embora ele falasse russo fluentemente, só conversava com o presidente Vladimir Putin por meio de intérprete.

Portanto, a Rússia governava a Ucrânia, mas não governa mais. Por que se fala tanto de sua influência?

O presidente russo Vladimir Putin tem se mostrado extremamente agressivo na tentativa de fazer com que a Ucrânia rejeite a União Europeia e integre a União Alfandegária Eurasiana liderada por Moscou, constituída por alguns outros países outrora integrantes da União Soviética. Para tanto, ameaçou impor sanções econômicas à Ucrânia. Em 2004 e 2006, quando Yushchenko, o presidente favorável ao Ocidente, estava no poder, a Rússia parou de exportar gás natural para a Ucrânia em razão de conflitos políticos, prejudicando profundamente a economia.

Mas o que Putin tira, ele também dá. Algumas semanas depois de Yanukovich rejeitar o acordo com a UE, Putin ofereceu à Ucrânia um pacote de estímulo de US$ 15 bilhões e um desconto de 33% sobre o preço do gás natural russo. Desse modo, será mais difícil para Yanukovich abandonar o abraço de Putin, particularmente porque, em grande parte, o descontentamento popular se origina na debilidade da economia.

Por que a Ucrânia é tão importante para a Rússia?

Existem inicialmente razões superficiais. Os laços culturais são realmente profundos, e Putin não pode deixar de querer a proximidade de um país com o qual tem a Rússia tanta história em comum e tantos cidadãos russos. O país, fonte de alimentos e centro de irradiação das exportações de energia russa, é importante para a Rússia em termos econômicos e estratégicos. Putin teria ainda um interesse pessoal num grande acordo envolvendo a União Comercial Eurasiana e o considera seu legado.

E existem razões mais profundas. A Ucrânia tem o poder de fazer e desfazer a imagem que a Rússia tem de si mesma como grande potência, uma vez que vem apresentando um desempenho fraco desde a queda do Muro de Berlim. Como escreveu o cientista político Dan Drezner , na revista Foreign Policy: "Apesar de toda a diplomacia de Putin no Oriente Médio, a Ucrânia é muito mais importante para suas grandes ambições de poder.

Uma das primeiras sentenças que a gente aprende no Foreign Policy Community College é: "A Rússia sem a Ucrânia é um país; a Rússia com a Ucrânia é um império".

O que acontecerá agora?

O Parlamento revogou grande parte da lei antiprotestos que tanto enfureceu a população; também aprovou uma anistia geral dos manifestantes, desde que eles esvaziem os edifícios do governo ocupados.

O presidente russo suspendeu a ajuda financeira de US$ 15 bilhões, o que tornará mais fácil para Yanukovich deixar Putin e voltar ao acordo com a UE.

Entretanto, os protestos estão se espalhando rapidamente - inclusive nas regiões orientais de língua russa do país. Neste momento, a crise imediata diz respeito e muitas outras coisas além do acordo com a UE ou a divisão cultural ou mesmo a lei antiprotestos, mesmo que todas estas coisas tenham feito com que a crise Ucraniana chegasse a este ponto. A administração não muito adequada da crise que dura dois meses por Yanukovich criou uma situação muito constrangedora para ele.

Entre os analistas, tanto em Moscou quanto em Washington, comentam que, se Yanukovich entrar em pânico e chamar o Exército para dispersar os protestos, poderá desencadear a guerra civil. Esta parece uma possibilidade extremamente remota neste momento; talvez seja mais provável que o governo e os líderes da oposição cheguem a um acordo, que o governo ponha os pés pelas mãos e que Yanukovich perca as eleições de fevereiro de 2015. Mas o fato de que se discuta a eventualidade de uma guerra civil mostra o grau de preocupação e de incerteza internacional quanto ao futuro da Ucrânia.
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,submissoes-e-divisoes,1125422,0.htm

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