domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Vale do Silício desconhecido

Resenha EB / Correio Braziliense
09 Fev 2014

Cristalina (GO)

Conhecida pela abundância e pela variedade dos cristais que brotam com facilidade do chão, Cristalina (GO), a 130km de Brasília e dona da maior economia agrícola do Brasil, esconde uma riqueza potencialmente ainda maior. Bilhões de toneladas de silício com o mais elevado índice de pureza do mundo — acima de 99,99% — poderiam servir de base para o surgimento de um importante parque industrial de alta tecnologia, com impactos na balança comercial e no desenvolvimento do país.

A matéria-prima essencial para a fabricação de componentes de celulares, computadores, lâmpadas especiais e, sobretudo, painéis solares de geração elétrica continua, contudo, sendo subaproveitada ou exportada em estado bruto para outros países, principalmente a China. Mas empresários e líderes locais da cidade goiana, além de técnicos do governo, começam a buscar formas de viabilizar o sonho do Vale do Silício brasileiro, soterrado pela burocracia e pela falta de visão estratégica.

Os cristais (quartzo) encontrados em Cristalina são considerados de altíssima qualidade, mas o agronegócio e a extração de areia levaram à paralisação e até mesmo ao fechamento das minas. "Só a areia destinada à construção civil poderia ser vendida 10 vezes mais caro. Uma fábrica de painéis de células fotovoltaicas poderia viabilizar a energia solar no Brasil e ainda sanar a grave escassez elétrica da própria cidade", destaca Gustavo Rocha, geólogo do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e um dos maiores especialistas em silício no país.

Cláudio Scliar, professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e ex-secretário de mineração do Ministério de Minas e Energia, lamenta que matérias-primas tão comuns em estados como Goiás, Minas Gerais e Bahia estejam pesando na pauta de importações do país na forma de artigos de alto valor agregado. "É uma situação antiga, que tem se agravado", resume. Sabe-se que o Brasil é detentor de 95% das reservas mundiais de silício, o equivalente a 78 bilhões de toneladas.

O silício brasileiro serve de sustentação para a liderança chinesa na fabricação de supercondutores, painéis solares e componentes eletrônicos de todos os tipos. A prova disso está no volume da produção desse insumo pelo gigante asiático: a oferta mundial está na casa de 7 milhões de toneladas anuais, das quais 70% vêm da China, em torno de 5 milhões.

Rocha, do DNPM, observa que o processo de purificação do silício para o seu uso pela indústria é um processo caro e exclusivo de poucos países. Não por acaso, os maiores exportadores de manufaturados de quartzo para o Brasil foram a China (53%), a Coreia do Sul (16%), Taiwan (14%), o Japão (8%) e a Malásia (3%). Em 2012, de todas as importações de itens feitas pela indústria eletrônica do país, 84% foram, justamente, cristais com características de condutores de eletricidade.

Prospecções

O fato de ter reservas não apenas abundantes mas também as mais puras daria a Cristalina uma vantagem competitiva especial, que já chama a atenção de multinacionais, como a Siemens. Segundo a prefeitura, a marca alemã está interessada em desenvolver uma fábrica de lâmpadas LED na cidade. Também há prospecções de fabricantes de filtros especiais de água e de silicones e a preparação de uma visita de empresários locais à Califórnia, nos Estados Unidos, para buscar inspirações e parcerias no Vale do Silício original.

"É um triste desperdício usar minerais raros como ornamento de jardins ou areia de obra", protesta Simony Côrtes, diretora da consultoria Águia Ambiental. Segundo ela, não se justificam as indefinições do governo federal em relação à lavra de cristais, que não utiliza materiais tóxicos e ainda convive com a fauna e a flora do cerrado. Transformar areia, cristais e outras rochas de quartzo em pó para ser convertido em ligadas de silício é algo economicamente viável, garante ela.

No Brasil, em muitas propriedades rurais — sobretudo as localizadas numa grande área entre Minas Gerais, Goiás e Bahia —, o quartzo aflora tanto na forma de areia quanto na de rocha. William Souto, secretário municipal de Turismo e presidente da Associação de Artesãos de Cristalina, ressalta que a fartura na região permite que o garimpo ilegal do mineral resista ao tempo. "O garimpeiro ainda tem o sonho de encontrar algo especial", relata.

A maioria dos donos desses terrenos, lembram especialistas, desconhece o real teor dos seus depósitos. Muitos volumes acabam sendo vendidos com preço abaixo do potencial, mesmo sem receber qualquer refino. Boa parte dos estoques das grandes regiões produtoras foi exportada com grande intensidade nos últimos 10 anos, tornando negociantes chineses e canadenses figuras cotidianas em cidades pequenas.

Uso múltiplo

Apesar de ser o segundo elemento químico mais presente no planeta, perdendo só para o oxigênio, o silício quase nunca é encontrado isoladamente na natureza. Sempre vem combinado com outros minerais e precisa ser processado para servir a diferentes usos da indústria. Na forma mais pura (99,999%), o chamado silício metalúrgico, obtido de cristais e areias, serve à fabricação de placas solares.
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