segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O preceito da liberdade de expressão virou refúgio para quem prega a justiça pelas próprias mãos

Resenha EB / Folha de São Paulo / Ricardo Melo
10 Fev 2014

O preceito da liberdade de expressão virou refúgio para quem prega a justiça pelas próprias mãos

Há um mito na praça. O de que a liberdade de expressão existe e ponto. Quem já trabalhou numa redação mainstream sabe que nunca é exatamente assim. Coisas do sistema, e não pretendo me alongar sobre isso neste momento. É o jogo jogado. A título de exercício apenas: você já viu algum jornalista ter espaço em rede nacional para criticar o dono do veículo que o contratou?

Claro que nem tudo é preto ou branco; a moda são tons de cinza. O uso do conceito de livre manifestação varia com a época. Já beneficiou alhos e bugalhos. No combate à ditadura, serviu de bandeira para os adversários da violência desmedida contra opositores. Os generais, por sua vez, também o invocaram ao obrigar guerrilheiros "arrependidos" a fazer mea-culpa em público --sessões prévias de tortura à parte. Nestes dias de calor escaldante, o preceito virou refúgio para quem prega a lei da selva, o faroeste urbano, a justiça pelas próprias mãos.

Deixo claro desde o início. Como sempre defenderei o direito de qualquer um lutar contra regimes odiosos, também admito, mesmo com o nariz devidamente protegido, o direito de representantes das trevas declararem apoio ao ódio como regime. A escolha de um ou outro sistema de convivência social depende de cada cidadão. Prefiro o primeiro tipo.

A questão não é vetar o direito de expressão, mas avaliar o que foi expresso --e isto também é, ou deveria ser, uma prerrogativa básica. Valendo-me dela, digo com tranquilidade: repulsa é pouco para descrever o sentimento despertado pelo comentário que justifica, por "compreensível", a barbárie praticada contra um menor no Rio. Sim, valores mudam com o tempo. No Velho Oeste os acusados de roubar cavalos acabavam sumariamente na forca. Durante a escravidão, indivíduos eram açoitados até a morte; já a Ku Klux Klan americana incinerava negros como se fossem moscas. Mas era bom assim?

Muitos não se conformam em perceber que a civilização avançou, não tanto, é verdade, mas alguma coisa pelo menos. Rejeitam submeter o impulso animal ao racional e, pior: ainda chamam isto de pureza de princípios. É natural, como hipótese, que o parente de uma vítima tenha, no primeiro momento, desejos de vingança. Eis o instinto animal. Mas o que nos separa tanto de tubarões quanto de hienas é o lado da razão. Isto tem seu contraponto, presídios lotados por exemplo. Então que tal eliminar de antemão qualquer suspeito ou acusado? Precedentes há de sobra: a história oferece inúmeras modalidades de "soluções finais".

Felizmente na outra ponta existe gente como Yvonne Bezerra de Mello. Foi ela quem acudiu o jovem acorrentado por uma chusma de transviados. O que Yvonne levou em troca mostrou-se quase tão chocante quanto o fato. Seu depoimento sobre as ameaças que passou a ouvir: "Por rede social, email, telefone, tudo. Fui xingada de tudo o que é nome, me acusaram de educar bandido. É um choque saber que vivemos em uma sociedade nazista, fascista".

Yvonne conhece o riscado. Ganhou fama internacional ao denunciar a infamante chacina da Candelária, também no Rio. Relembrando: numa noite de julho de 1993, ocupantes de carros com placas encobertas pararam em frente à Igreja da Candelária e fuzilaram crianças e jovens que dormiam na área. Oito morreram: seis menores e dois maiores. Policiais cometeram o crime, soube-se depois.

Certamente o fantasma daqueles dias voltou a rondar a cabeça de Yvonne. Tudo porque ela não achou "compreensível" que um jovem tivesse sido espancado, linchado e preso a um poste com uma trava de bicicleta.

Pergunta incômoda: por que apesar de tanta liberdade de expressão Yvonne não tem espaço como comentarista de TV? Fica a ideia.
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