quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Má gestão do petróleo está por trás de crise na Venezuela

Resenha EB / Valor Econômico /  Financial Times / Andres Schipani e John Paul Rathbone
26 Fev 2014

Pelo menos umas doze pessoas morreram nas manifestações de rua na Venezuela. Novos confrontos são prováveis. Mas, em meio ao caos, o petróleo desse país membro da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) continua a fluir -- por enquanto.

Enquanto manifestantes pediam a sua renúncia, o presidente Nicolás Maduro culpava os "fascistas" e os "espiões americanos" e arregimentava a sua base de apoio socialista. Na semana passada, ele trocou o nome do maior campo de petróleo do país, o Cinturão de Orinoco, para Hugo Chávez, seu mentor.

"Decidi chamá-lo a partir de hoje de cinturão do petróleo Hugo Chávez. Vocês concordam?", perguntou Maduro em comício com trabalhadores do setor petrolífero. "Sim!", bradou a multidão.

Para críticos, como os estudantes das manifestações e o líder oposicionista Leopoldo López, de 42 anos, formado em Harvard e preso naquele mesmo dia sob acusações de incêndio criminoso e formação de quadrilha, essa honraria é inadequada.

Embora a Venezuela ostente as maiores reservas energéticas do mundo, o "chavismo" administrou estrondosamente mal a riqueza do petróleo, criando os atuais problemas por que passa o país.

"O principal problema da PDVSA [a petrolífera estatal] é a voracidade fiscal do governo", diz David Voght, diretor-executivo da consultoria IPD Latin America. "A Venezuela se concentrou mais na política do que na eficiência de seu setor petrolífero."

A drenagem dos recursos de investimento da PDVSA para os programas sociais contribuiu, até agora, para manter o apoio ao governo. A maioria dos protestos, mas não todos, ocorreram nos bairros de maior nível de renda do país.

"Para que os protestos sejam eficazes, precisam incluir os pobres", diz o ex-candidato presidencial Henrique Capriles, membro da ala mais moderada da oposição, que adverte para o erro de criar expectativas de que o governo do presidente Maduro estaria para cair.

Mas economizar em investimentos mata a galinha dos ovos de ouro da Venezuela, aumentando, assim, o risco de agitação social. A queda da produção de petróleo significa menos dinheiro para gastar em produtos importados, e, portanto, intensificação da escassez, enquanto a impressão de dinheiro para custear um déficit público cada vez maior alimentou uma inflação de mais de 56%.

Boa parte da produção de petróleo da Venezuela já está comprometida. A produção caiu para 3 milhões de barris/dia, em relação aos 3,1 milhões de b/d de uma década atrás, segundo dados oficiais - embora o recuo se revele maior caso se use outras medições. Desse volume, 310 mil b/d quitam empréstimos da China; cerca de 400 mil b/d são vendidos a aliados, como Cuba, a preço inferior aos de mercado ou cumprem acordos de permuta; e cerca de 600 mil b/d são usados para atender ao altamente subsidiado consumo interno.

Em consequência, há ainda menos dinheiro para gastar com importações. A título de ilustração, o remanescente 1,7 milhão de b/d venezuelanos geram cerca de US$ 58 bilhões em receitas por ano. Em contrapartida, as importações totalizaram US$ 77 bilhões em 2012, segundo estatísticas da ONU.

"Haverá um corte de cerca de 15% no total de importações neste ano", estima Henkel García, diretor da Econométrica, uma consultoria de Caracas. "O governo e a PDVSA, que são uma coisa só, são os culpados."

Esses temores podem estar muito longe das preocupações dos manifestantes, que acusaram policiais à paisana de disparar munição real contra multidões, ou das de Maduro, que falou em "conspirações golpistas fascistas", ao conclamar a unidade dos militares enquanto os protestos persistiam - um sinal preocupante.

Mas, no passado, a Venezuela solucionou momentos similares de sufoco monetário mediante emissões de títulos internacionais. É mais difícil repetir esse truque agora, uma vez que os títulos venezuelanos foram responsáveis pelos maiores prejuízos de investidores em dívida de emergentes neste ano. Por causa disso, os títulos de referência do país com vencimento em 2022, já rendem 18%, quase o dobro da remuneração de títulos equivalentes da Ucrânia.

Com reservas estrangeiras de apenas US$ 20 bilhões, o país terá de pagar US$ 4,5 bilhões neste ano de principal da dívida, bem como outros US$ 13 bilhões em juros. Os detentores de títulos estão preocupados, tentando situar-se onde estão, na hierarquia de prioridades do país, caso o governo volte a priorizar as importações em detrimento de honrar a dívida.

Rafael Ramírez, ministro da Energia, czar da economia e presidente da PDVSA, tem procurado tranquilizar os investidores, dizendo que a Venezuela "não deixou nem deixará de cumprir nenhuma de suas obrigações em relação à sua dívida externa".

Apesar disso, a crise de liquidez deixa PDVSA com cada vez menos recursos para investir em sua atividade essencial, o que por sua vez resulta em menor receita petrolífera, menos importações e mais inquietação - realimentando um círculo vicioso. "Os investidores estão observando horrorizados como Maduro acabará matando o que já foi a galinha dos ovos de ouro da América Latina", disse Russ Dallen, da Caracas Capital Markets, um banco de investimento.

A diferença em relação a 2002, quando a Venezuela foi palco de grandes protestos de rua e de uma tentativa de golpe, é dramática. Naquela época, a oposição apoderou-se da PDVSA, mas nem o controle sobre os recursos energéticos do país não conseguiu derrubar o governo. Hoje, em contraste, em meio ao falatório sobre a precariedade da posição de Maduro, o Estado continua controlando a PDVSA e está, ele próprio, sufocando a economia.
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