quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Foragido há 80 dias, Pizzolato é preso na Itália

Resenha EB / O Globo / Chico de Gois e Evandro Éboli
06 Fev 2014

Depois das condenações

Ex-diretor do bb usava documento falso; cardozo diz que brasil vai pedir extradição

BRASÍLIA, RIO DE JANEIRO E BUENOS AIRES - Foragido desde 15 de novembro, Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil condenado a 12 anos e 7 meses de prisão no processo do mensalão, foi preso ontem pela polícia italiana na cidade de Maranello, por volta de 10h30m (horário local). O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que vai pedir a extradição. Mas o governo sabe que o pleito pode ser rejeitado pela Itália porque Pizzolato também tem cidadania italiana.

A Procuradoria Geral da República (PGR) informou que deu início às providências necessárias, junto ao Ministério da Justiça e ao Supremo Tribunal Federal, para formalizar o pedido de extradição. O governo brasileiro já decidiu que, se for negada a extradição, pedirá que a Justiça italiana julgue Pizzolato pelos crimes do mensalão. Ele foi condenado por formação de quadrilha, peculato e lavagem de dinheiro.

Cardozo afirmou que a prisão teve "total colaboração" entre as polícias dos dois países, que agiram em conjunto, com ajuda dos adidos da PF no país europeu. Ele festejou a prisão como uma resposta às críticas, sobretudo da oposição, de que a PF teria feito corpo mole para facilitar a fuga do ex-diretor do BB.

- Essa é uma resposta às críticas de que o governo não estava investigando o caso, que havia um acumpliciamento. A prisão de Pizzolato demonstra a competência da PF, a forma republicana de sua atuação, seja com quem for - afirmou o ministro.

Embora Pizzolato tenha sido condenado pelo envolvimento no mensalão, o motivo da prisão dele na Itália, onde tem cidadania, foi prosaico: falsidade ideológica. Para sair do Brasil, ele utilizou documento de identidade, título de eleitor e passaporte em nome de seu irmão Celso Pizzolato, morto em 8 de abril de 1978 num acidente de carro e enterrado em Concórdia, Santa Catarina.

A Polícia Federal descobriu que o ex-diretor do Banco do Brasil deixou o país através da cidade de Dionísio Cerqueira, na fronteira de Santa Catarina com a Argentina, valendo-se de documentos falsos em nome de Celso. Deu entrada naquele país pela cidade de Bernardo de Irigoyen, em 11 de setembro, às 10h17m, dois meses antes de sua ordem de prisão ser expedida pelo Supremo Tribunal Federal. De lá, seguiu para Buenos Aires também por terra. No total, percorreu 1.314 km até chegar a Buenos Aires. A Polícia Federal não soube dizer se ele viajou apenas de carro ou se utilizou outro meio de transporte.

De posse do passaporte em nome do irmão, Pizzolato embarcou no aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, no dia 12 de setembro, às 19h08m, rumo a Barcelona, na Espanha. A opção por uma cidade espanhola como porta de entrada na Europa não se deu por acaso. Em 2010, ele já havia requisitado - e obtido - o direito de residir naquele país. A Polícia Federal também obteve a informação de que a mulher dele, Andrea Haas, havia viajado para a Espanha no ano passado, como parte da preparação para a fuga. Quando ele chegou, ela já o aguardava.

Um dia depois de aterrissar em Barcelona, ele já estava na Itália, onde informou às autoridades do país que seus documentos haviam sido furtados. Com isso, conseguiu tirar uma identidade italiana, sempre em nome do irmão falecido. As autoridades italianas informaram que, no ano passado, a pessoa que se identificou como Celso Pizzolato havia requerido a mudança de seu status de italiano residente no exterior para italiano residente na Itália. Essa informação foi essencial para a PF fechar o quebra-cabeça, uma vez que, nas consultas realizadas a todos os países da América Latina e do mundo, incluindo a Europa, não havia nenhum registro de entrada ou saída de Henrique Pizzolato.

Ele foi detido ontem de manhã em Maranello, no norte da Itália. Estava hospedado na casa de um sobrinho, Fernando Grando, funcionário da Ferrari. No momento da prisão, o ex-diretor do BB estava acompanhado da mulher. Segundo o oficial de ligação da polícia italiana no Brasil, Roberto Donati, ele não esboçou reação. Mas ainda tentou sustentar a versão de que era Celso Pizzolato.

Pizzolato foi levado para Modena, onde será interrogado. Ele havia sido localizado na noite anterior, mas a polícia italiana esperou até a manhã de ontem para fazer a prisão. Um Fiat Punto vermelho, com placas de Málaga, na Espanha, estacionado em frente à casa, deu a certeza de que Pizzolato estava no local. O carro havia sido adquirido por Andrea Haas.

De acordo com Donati, os policiais observaram que uma pessoa que havia deixado a casa - possivelmente o sobrinho do ex-diretor do BB - não havia trancado a porta quando saiu, o que significava que havia mais gente na residência.

De acordo com a imprensa local, agentes da Interpol vigiavam a casa do sobrinho de Pizzolato há dois dias. O casal estava aparentemente recluso, e só foi identificado quando a mulher de Pizzolato abriu uma janela e foi reconhecida pelo agentes. A polícia então entrou na casa e pediu os documentos de Pizzolato, que teria apresentado um passaporte de seu irmão, Celso Pizzolato, com uma foto sua.

Também foram encontrados com o ex-diretor do Banco do Brasil outros dois documentos de identidade do irmão com fotos suas. O brasileiro foi levado à delegacia da cidade, onde foi registrado o crime de porte de documento falsificado. Segundo a polícia, o sobrinho de Pizzolato vive sozinho na cidade, onde trabalha como designer na Ferrari, e não estava no imóvel no momento da prisão. Nenhuma linha de telefone fixo está registrada no endereço da residência.

- A tarefa da polícia é apenas prender, atendendo uma demanda da Interpol. O que vai acontecer depois não cabe à polícia decidir - afirmou Donati.

Por telefone, um funcionário do Ministério do Interior da Itália disse que o órgão não se pronunciaria sobre o caso. A polícia de Modena dará uma entrevista hoje, às 11h (8h de Brasília), para prestar mais esclarecimentos sobre a situação.

A prisão do ex-diretor do BB, que era fugitivo da Justiça brasileira, ocorreu porque a Polícia Federal incluiu seu nome numa lista vermelha da Interpol, dando o alerta de que ele era procurado. Donati confirmou que, quando os policiais o abordaram, ele ainda tentou negar que fosse Henrique - sustentou que seu nome era Celso. Mas depois acabou confessando o crime de falsidade ideológica.

Na casa onde vivia com a mulher, a polícia italiana localizou outros documentos em nome de Henrique e cerca de 15 mil euros em dinheiro.

O diretor-executivo da Polícia Federal, Rogério Galloro, observou que a prisão de Pizzolato na Itália não ocorreu porque ele estaria utilizando documentos falsos, mas porque havia um pedido da Interpol. Galloro também não quis arriscar um palpite sobre o que acontecerá daqui para frente:

- As autoridades italianas podem decidir que devem mantê-lo preso, mas não dá para saber.

A Procuradoria Geral da República avalia que o tratado de extradição firmado em 1989 entre Brasil e Itália não veda totalmente a extradição de italianos para o Brasil, uma vez que cria apenas uma hipótese de recusa facultativa da entrega. "O Código Penal, Código de Processo Penal e a Constituição italiana admitem a extradição de nacionais, desde que expressamente prevista nas convenções internacionais", informou a assessoria da PGR em nota.

A extradição é incerta até porque o Brasil negou mandar de volta à Itália Cesare Battisti, condenado na Itália por terrorismo, por participação em assassinatos.

Procuradas pelo GLOBO, autoridades argentinas não quiseram comentar a confirmação de que Pizzolato chegou à Europa via Buenos Aires. Segundo representantes da Direção Nacional de Migrações, a Lei de Proteção de Dados Pessoais estabelece que a informação só pode ser dada à Justiça. (Colaboraram Janaína Figueiredo e Bárbara Marcolini)
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