terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Conflitos políticos se agravam na Venezuela

Resenha EB / Valor Econômico
18 Fev 2014

A situação econômica da Venezuela piora a cada dia, trazendo agora consigo uma escalada da violência política, com conflitos abertos entre partidários do governo e da oposição. O governo de Nicolás Maduro radicalizou suas posições nos dois campos, enquanto que os grupos que se opõem ao chavismo dão mostras de uma cisão que pode se tornar irreversível. Três mortos, dezenas de feridos e presos é o saldo dos conflitos de rua que tomaram conta de Caracas desde quarta-feira, encabeçados por estudantes que agora protestam pela libertação dos presos.

A política econômica do chavismo chegou a um beco sem saída e foi capaz de produzir maravilhas, como a de criar uma crise cambial tendo uma receita com petróleo de US$ 100 bilhões anuais e as maiores reservas de óleo do mundo sob seu solo, além de superávit comercial de US$ 20 bilhões (2012). Durante boa parte do reinado de Hugo Chávez, iniciado em 1999, o petróleo esteve acima dos US$ 100 o barril e um cálculo superficial indica que desde então US$ 1 trilhão ingressou no país. As reservas internacionais, porém, estão em US$ 20,7 bilhões e em queda, o que levou o câmbio paralelo a disparar e o governo de Maduro a racionar ainda mais a oferta de dólares. Com isso, agravou-se a escassez de bens essenciais - um em cada quatro estão em falta - e aos poucos se paralisam os setores que escaparam das estatizações arbitrárias feitas por Chávez.

Na semana passada, a Toyota interrompeu a produção por falta de peças, ao não obter nos tímidos leilões de dólares oficiais as divisas necessárias ao pagamento das importações. O governo de Maduro vende esses dólares por 11,3 bolívares a unidade, quase o dobro do câmbio "oficial" de 6,3 bolívares. O câmbio paralelo é doze vezes maior que o oficial e chega a 84 bolívares.

Com a desvalorização cambial no início de seu mandato, há 10 meses, Maduro conseguiu levar a inflação aos 56%, enquanto o crescimento, minado pela baixa produtividade das empresas nacionalizadas e pela escassez de dólares, reduziu-se a 1% no ano passado.

Carestia, escassez de bens essenciais e criminalidade minaram o apoio ao chavismo ao longo dos anos. Na eleição presidencial, ainda sob o impacto recente da morte de Hugo Chávez, seu sucessor, Nicolás Maduro, obteve 50,6% dos votos, ante 49% do líder da Mesa de Unidade Democrática, Henrique Capriles. Encurralado pelas difíceis condições econômicas que herdou e pela necessidade de cimentar sua autoridade em um chavismo cindido, Maduro resolveu ampliar as doses de radicalismo de Chávez. No fim de 2013, diante da disparada dos preços, prendeu mais de "100 burgueses" pelos reajustes e, em janeiro, fez aprovar uma lei que fixa teto de 30% para a margem de lucro das empresas privadas.

A consequência dessa "guerra econômica" travada pelo presidente, segundo suas próprias palavras, foi o maior estreitamento dos já depauperados canais democráticos. A imprensa foi em grande parte domesticada com a compra de canais de oposição por grupos fiéis ao regime e outra parte sofre os efeitos dos desatinos econômicos - 11 jornais deixaram de ser publicados por falta de papel. O governo quer mais poder para escolher seus adversários e Maduro ameaça reeditar a lei que impede a candidatura de quem ameace a "paz social". Todas as instituições da República estão nas mãos dos chavistas, que ainda detêm controle da maioria dos Estados.

O governo ainda mantém, porém, o apoio da população mais pobre do país, embora tenha perdido controle eleitoral de algumas das zonas mais pobres de Caracas, como a do Petare. Com o país dividido quase que ao meio, parte da oposição parece ter se desgarrado para o caminho do confronto. O governo decretou a prisão do líder da Vontade Popular, o direitista Leopoldo López, que acredita ser possível encurralar Maduro com manifestações massivas de protesto. López é um alvo fácil, porque convocou as manifestações que levaram à estúpida tentativa de golpe contra Chávez em 2002, que se encerrou pateticamente em um dia e que sepultou por vários anos as chances políticas da oposição.

O caminho moderado de Capriles, que acredita que o chavismo não pode ser derrotado pelo confronto direto, também é acidentado. É duvidoso que a cúpula encastelada no poder há mais de uma década permita uma vitória nas urnas da oposição. A radicalização do governo parece não ter mais volta e parte da oposição seguiu a mesma linha, sinal dos piores augúrios para a Venezuela.
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