sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Ares de Guerra Fria, e não é com a China

Resenha EB / Valor Econômico / Humberto Saccomandi
27 Fev 2014

O mundo respira ares de Guerra Fria: uma revolta num país do Leste Europeu derrubou um regime autocrático, porém eleito, apoiado pelo Kremlin, que mobiliza tropas e reage avisando que pretende instalar bases militares pelo mundo, inclusive na América Latina; no Oriente Médio, uma guerra civil opõe o Ocidente a Moscou. E recém-acabou uma Olimpíada altamente politizada.

Por trás desse revival dos anos 80 está uma Rússia cada vez mais assertiva sob a liderança do presidente-czar Vladimir Putin. Moscou é um jogador que não quer deixar a mesa principal de jogo, ainda que tudo aponte para uma polarização EUA-China neste século. Resta saber se Putin e seus sucessores terão fichas suficientes para ficar no jogo.

Durante o período conhecido como Guerra Fria, os EUA e a extinta União Soviética evitaram um confronto direto (a guerra quente), mas mantiveram um constante estado de tensão e se enfrentaram por meio de terceiros, em outros países. Foi assim em Angola, Moçambique, Nicarágua, Afeganistão, Vietnã e muitos outros lugares. Os EUA, com base na teoria do dominó, buscavam evitar que países passassem para controle comunista, pois temiam que, se uma peça caísse, outras cairiam em seguida. Isso gerou guerras indiretas, por procuração, entre os EUA e a URSS.

Com a queda do Muro de Berlim (em 1989) e a posterior (em 1991) desintegração da URSS (que Putin já chamou de tragédia), caíram os regimes comunistas satélites de Moscou, que foram aos poucos absorvidos pelo Ocidente.

Mas, com exceção das três repúblicas bálticas (Letônia, Lituânia e Estônia), que logo se incorporaram à União Europeia, a Rússia conseguiu manter sob sua influência quase todas as demais 11 repúblicas que formavam a URSS. Muitas são governadas hoje de modo autocrático, emulando o regime de homem-forte de Moscou.

Esses países têm minorias russas em suas populações, o que deixa o entorno da Rússia muito complexo e ao mesmo tempo dá ao Kremlin o pretexto de atuar para proteger o povo russo. Foi o que ocorreu na Geórgia. Diante de um governo hostil, Moscou enviou tropas para as regiões onde se concentra a minoria russa, a Abkhazia e a Ossétia do Sul, que de fato se tornaram autônomas.

Putin tem uma visão imperial da Rússia, na qual a Ucrânia parece ser uma peça importante, até por ser o segundo país mais populoso e a segunda maior economia, atrás apenas da própria Rússia. Com razão, os russos acusaram os EUA e a Europa de estimularem a derrubada do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich. O senador americano John McCain foi à praça de Kiev incitar os manifestantes.

Não está claro qual será a reação russa à perda de influência na Ucrânia para o Ocidente. Há risco de divisão do país. Nas áreas de população majoritariamente russa, como a estratégica Crimeia, já se fala abertamente em deixar a Ucrânia e se incorporar à Rússia. Mas isso poderia gerar uma guerra civil, que não interessaria a ninguém.

Além do imediato entorno russo, Putin parece também mais disposto a manter e ampliar a influência de Moscou em regiões estratégicas e onde mais possa incomodar o arquirrival EUA (curiosamente, o Kremlin parece se incomodar menos com a potência ascendente, a China).

Segundo diplomatas russos, o apoio de Moscou à resolução da ONU que permitiu a intervenção na Líbia (e a derrubada do regime de Muamar Gadafi) foi considerado um grande erro por Putin (a decisão foi atribuída à época ao então presidente Dmitri Medvedev, um aliado de Putin). Na avaliação russa, a queda de Gadafi entregou a Líbia de presente ao Ocidente. Ainda segundo os diplomatas, esse erro não será repetido. Isso ficou claro na Síria, onde Putin mantêm o apoio ao presidente Bashar Al-Assad. O presidente americano, Barack Obama, e a Europa pediram abertamente a saída de Assad, que continua no poder graças ao apoio de Moscou, em meio a uma guerra civil que já deixou dezenas de milhares de mortos.

Ontem, o ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, afirmou que está negociando a instalação de bases militares em vários países. Citou Cuba, Venezuela, Nicarágua e Vietnã. Na Venezuela, a aproximação com o regime chavista resultou, por enquanto, numa dívida bilionária, pois Caracas vem atrasando o pagamento de armas compradas da Rússia.

Essa projeção imperial de Putin é financiada por petrodólares. A Rússia é o maior exportador de energia do mundo, empatada com a Arábia Saudita. No ano passado, o país exportou US$ 521,6 bilhões (bem mais do dobro dos US$ 242 bilhões exportados pelo Brasil). Só em petróleo, derivados e gás, a Rússia exportou US$ 349 bilhões, segundo dados do Banco Central russo. O saldo comercial russo em 2013 somou impressionantes US$ 177 bilhões. Boa parte desse saldo é comido, no entanto, pelo grande fluxo de saída de capital do país, de modo que, no balanço de conta corrente, sobraram US$ 32,6 bilhões.

Críticos dizem que Putin teria muito mais o que fazer com essa bonança da energia do que tentar reconstruir o império soviético ou algo parecido. "Moscou não precisa governar mais gente; precisa elevar os padrões de saúde, educação e trabalho da sua própria gente", escreveu Dmitri Trenin, diretor do centro de estudos Carnegie Moscow Center, no jornal "The New York Times" nesta semana.

A Rússia enfrenta ainda o desafio de modernizar a sua economia, para reduzir a dependência da venda de commodities e deixar de ser, como ironizam os americanos, um país de Terceiro Mundo com armamento de Primeiro Mundo.

Mas o governo russo gastou exorbitantes US$ 50 bilhões para organizar os Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, que acabaram no último domingo. Putin disse esperar que eles projetem a imagem de uma nova Rússia, moderna.

Num momento em que os EUA tentam se concentrar na sua agenda do século XXI - a Ásia -, a agenda do século XX, a Rússia (junto com Europa e Oriente Médio) insiste em não sair de cena. E por um bom tempo ainda Moscou deverá ter combustível para se financiar.

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às quintas-feiras
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