domingo, 19 de janeiro de 2014

Político, 'Rolê' do Leblon termina com churrasquinho e uísque barato

Folha de São Paulo / LUCAS VETTORAZZO
19/01/2014 20h36

DO RIO

O tom político que tomou conta do "rolezinho" marcado para o Shopping Leblon, no bairro de mesmo nome, deu lugar a uma espécie de festa com a cara, de fato, dos encontros de jovens da periferia de São Paulo.

Ainda que os integrantes do "rolezinho" do Leblon, bairro nobre da cidade, sejam os manifestantes dos protestos de rua do Rio e não somente jovens da periferia, uma caixa de som foi ligada com funk em alto volume. Sobre uma churrasqueira improvisada na calçada, foram colocadas linguiças de porco e asinhas de frango. Os manifestantes dançaram e beberam uísque barato e cerveja.

Os participantes são estudantes universitários, ativistas dos movimentos sociais, simpatizantes de partidos de esquerda, anarquistas e black blocs sem máscaras.


Manifestantes a favor do rolezinho fazem churrasco em frente ao Shopping Leblon

Os próprios manifestantes não escondem o tom politizado do ato.

"O rolezinho é mais mostra de que os jovens da periferia estão acordando. Os políticos não contavam com essa força das ruas, que os jovens iriam exercer sua cidadania e cobrar um estado e uma sociedade mais justa", disse o ativista Rodrigo Silva dos Santos, da Fist (Frente Internacionalista dos Sem Teto), que nos últimos meses foi visto em quase todas as manifestações de rua.

Às 18h30, o rolezinho reunia cerca de 100 pessoas na porta do shopping que não funcionou. Do outro lado da rua, um outro shopping, o Rio Design Leblon, também fechou as portas.

O cineasta Ricardo Targino, 33, em determinado momento pegou o microfone de gritou que o shopping é o novo "20 centavos". "O 'rolezinho' é, acima de tudo, pedagógico. A elite branca do país tem muito a aprender no que diz respeito à convivência com as pessoas negras e da periferia", disse.

De quando em quando ouvia-se o grito "não vai ter Copa". Os manifestantes também arriscaram gritar palavras de ordem contra o shopping. "Ih, ih, ih, deixa eu entrar pra consumir", gritaram. Em tom de ironia e ameaça os manifestantes gritavam: "Alerta, alerta, alerta à burguesia. Ou deixa o rolezinho ou vai ter ato todo dia".

"Esse ato é em apoio aos rolezinhos de São Paulo. A própria reação da sociedade a um evento que inicialmente era espontâneo das periferias de São Paulo politiza a questão. Eu estou achando ridículo o shopping fechar por isso, pois não havia nenhuma ameaça de violência", afirmou a professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Tatiana Roque, 43, que disse ter vindo ao 'rolezinho' como "uma observadora".

Ao lado do shopping, em frente ao teatro Oi Casagrande, onde às 19h foi encenado o musical sobre a Elis Regina, espectadores entram por uma porta secundária. Os manifestantes em alguns momentos hostilizaram o público do musical, formado majoritariamente por pessoas de mais idade. "Ei, burguês, a culpa é de vocês", diziam.

Ainda que o secretário de segurança pública do Estado, José Mariano Beltrame, tenha dito que não tomaria nenhuma atitude preventiva ao "rolezinho", havia um grande contingente policial no local. Ao longo da avenida Afrânio de Melo Franco, se posicionaram pelo menos cinco viaturas da Polícia Militar e três grupos de vinte policiais, além de outras quatro viaturas da Guarda Municipal. Havia ainda seguranças do shopping e homens à paisana que não se identificam como policiais ou seguranças particulares.

Não foi registrado nenhum tipo de tumulto. A polícia observou o ato de longe. Um jornalista da Globonews foi hostilizado e obrigado a deixar o ato sob vaias.

ROLEZEIROS

Apenas um grupo apareceu com o intuito de fazer o 'rolezinho' na sua forma clássica. Um grupo de dois homens e três menores moradores da favela da Rocinha chegou ao local em bicicletas e skates.

"Eu vim para dar um rolé com a minha gata no shopping, conhecer gente nova, mas pelo visto é manifestação. Vou dar rolé na praia de skate mesmo", disse Ricardo Israel, 22, que se identificou como vendedor e cantor de R&B. Os outros de seu grupo não quiseram conversar com a reportagem.
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/01/1399982-politico-role-do-leblon-termina-com-churrasquinho-e-uisque-barato.shtml

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