sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

'Não há empecilhos para investimentos no Brasil', afirma Márcio Holland

O Estado de S.Paulo / Adriana Fernandes e João Villaverde
31 de janeiro de 2014 | 2h 18

Para secretário, economia do País está em processo de recuperação e contas externas vão mostrar equilíbrio este ano

BRASÍLIA - Depois de um início do ano de piora nas expectativas, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, afirma que a economia brasileira está recuperando a confiança e o que o País vai continuar na trajetória de sólidos resultados fiscais. Na avaliação dele, o quadro macroeconômico e fiscal não será empecilho para o aumento dos investimentos e o crescimento da economia. "Não há motivo nenhum para acreditar que haja algum empecilho advindo do quadro macroeconômico brasileiro", afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Há razão para ser mais otimista com o crescimento econômico?

MÁRCIO HOLLAND - A economia brasileira está neste processo de recuperação desde 2012. Todos têm a avaliação de que 2013 foi melhor do que 2012, graças, principalmente, ao ritmo muito bom dos investimentos. Está acima do PIB, o que é ótimo sinal. Vislumbramos o investimento crescendo acima do PIB em 2014.

O que vai ajudar?

MÁRCIO HOLLAND - Teremos alguns componentes adicionais na atividade em 2014 que não estavam presentes em 2013. O primeiro é que há cenário de crescimento mundial maior, com a Zona do Euro saindo de crescimento negativo. E essa movimentação deve gerar externalidades positivas para o Brasil ao longo de 2014. O segundo elemento é a dinâmica do crédito. Em 2013, começamos com uma pressão de inflação de alimentos que tencionou a preferência do consumidor e que teve associação com oferta de crédito dos bancos. Neste ano, teremos uma inflação de alimentos mais benigna, que terminou o ano passado com alta de 8,51% pelo IPCA, depois de ter acumulado 14% em abril. Vemos menor pressão de alimentos e bebidas. Esse ambiente faz com que você tenha uma redução consistente de inadimplência. A taxa de desemprego vem se mantendo estável em nível baixo, com cenário de queda em alguns casos. Essa combinação vai representar um avanço maior do consumo.

A visão então é favorável para a combinação desses fatores?

MÁRCIO HOLLAND - Essa combinação vai ser mais um fator de movimentação dinâmica na economia. Teremos demanda agregada adicional em relação a 2013 e isso vai promover movimentação a mais em estoques e, portanto, mais produção. O consumo, até o terceiro trimestre do ano passado, estava crescendo 2,4%. Esse consumo deve ser elemento adicional de crescimento da economia ao longo do ano. São esses fatores importantes para a atividade: investimento crescendo acima do PIB e o mercado internacional em recuperação gerando externalidade positiva para o Brasil por meio do vazamento de renda.

E quanto à taxa de investimento propriamente? Foi muito puxada em 2013 por ônibus e máquinas agrícolas....

MÁRCIO HOLLAND - A parte de máquinas e equipamentos representa 55% da formação bruta: parte meios de transportes e parte máquinas para fins agrícolas, que cresceu muito no ano passado e gera modernização do setor agrícola. Isso segue firme em 2014, com mais safra recorde, indo para 167 milhões de toneladas, e com aumento da produtividade. Esse grande volume de máquinas gera produção. Veja também máquinas para fins industriais, que são complementadas por importadas, o que é natural. É assim em todos os países.

O sr. está preocupado com saldo comercial baixo e o déficit recorde nas transações com o exterior?

MÁRCIO HOLLAND - Não. Todos os cenários, os nossos e dos analistas, são de melhora em 2014. O ano de 2013 foi um momento específico. Vamos observar uma correção nesse desequilíbrio de conta corrente, então não nos preocupa. Há sinal de melhoria da balança comercial, da própria conta petróleo, com aumento da produção e do refino. Nosso cenário inclui melhora das transações correntes, isso não será um problema para 2014. O investimento estrangeiro vai voltar a financiar o déficit ao longo do ano, com patamar de US$ 65 bilhões.

A política fiscal tem sido um problema para a confiança do empresário?

MÁRCIO HOLLAND - O ambiente macro é de muita solidez, tem demonstrado isso em todas as frentes. No lado fiscal, temos feito muito nos últimos 15 anos, os maiores superávits primários do mundo. A dívida líquida está caindo, a bruta está estável ao longo do tempo. Nesse cenário em particular, o que acredito é: não há qualquer razão para associar o quadro macroeconômico a uma decisão de investimento no Brasil.

A política fiscal não será um empecilho?

MÁRCIO HOLLAND - Não há motivo nenhum para acreditar que haja algum empecilho advindo do quadro macroeconômico brasileiro.

Por que a presidente Dilma Rousseff deu tanto destaque à política fiscal em Davos se não há um problema nesse front?

MÁRCIO HOLLAND - Ela tocou em vários pontos, não somente esse. Houve ênfase nos investimentos em infraestrutura, em educação e saúde, e também a importância da estabilidade institucional brasileira, as baixas taxas de desemprego. Temos um mercado consumidor muito grande, como potencial de mercado consumidor ainda maior, como destacou a presidente. A penetração de TV digital em 8%, de máquinas de lavar roupa em 55%, sendo 35% de automáticas, então há um universo de municípios para aumentar. As análises que nós recebemos de perspectivas de investimento para Brasil destacam isso.

Há economistas defendendo mais austeridade fiscal e outros dizendo que nessa hora de retomada do crescimento o governo não deveria transmitir aperto. Como o sr. se coloca nessa divisão?

MÁRCIO HOLLAND - Respeito as avaliações, mas acredito que o Brasil vem praticando uma política de consolidação fiscal de muitos anos. Não estamos falando de uma política de um ano, dois. Há muitos anos o Brasil vem fazendo excelentes resultados primários. A dívida líquida caiu de 60% para 34% do PIB e não é à toa. Melhorou seu perfil e alongou. Vamos continuar na mesma trajetória de bons e sólidos resultados econômicos e fiscais.
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nao-ha-empecilhos-para-investimentos-no-brasil-afirma-marcio-holland,1125071,0.htm

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