terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Futebol mundial esconde R$ 4,8 bilhões em contratos de jogadores

O Estado de S. Paulo / Jamil Chade - Correspondente
28 de janeiro de 2014 | 4h 55

Fifa mostra que parte do dinheiro não aparece nas contas oficiais da maioria dos clubes

GENEBRA - Um movimento de cerca de US$ 2 bilhões (R$ 4,8 bilhões) por ano jamais aparece nas contas oficiais do clubes, nos contratos dos jogadores nem são revelados aos fiscos do países. Informações coletadas pela Fifa e obtidas com exclusividade pelo Estado apontam que 40% de todo o movimento de dinheiro nas transferências de jogadores de futebol jamais são declaradas, transformando o mercado mundial de craques num dos maiores canais de fluxo ilegal de dinheiro no mundo.


Albert Gea/Reuters - 3/6/2013
Contrato de Neymar com Barcelona provocou escândalo

O escândalo dos contratos de Neymar no Barcelona, portanto, é apenas a ponta de iceberg. Fontes revelaram que outros contratos envolvendo brasileiro no clube catalão também tinham cláusulas sigilosas, mesmo com outros presidentes do time.

Apenas em 2011, a Fifa registrou mais de 5 mil vendas e compras de jogadores, com uma movimentação de US$ 2,3 bilhões. Mas isso, segundo a Fifa, seria apenas parte da história e quatro de cada dez dólares negociados nunca aparecem nas contas oficiais.

A entidade vem se lançando em um esforço para registrar eletronicamente todos os contratos de venda de jogadores, exigindo que clubes e agentes revelem o valor real da transação, para onde foi enviado o dinheiro e quem o recebeu.

Mas, nesse esforço, a Fifa está descobrindo que os atores que comandam um dos negócios mais lucrativos do mundo são múltiplos e difusos. A tentativa da Fifa é a de forçar clubes e agentes a "colocar sobre a mesa" o real valor das transferências, o que facilitaria o combate à lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Mas os técnicos da entidade admitem que o desafio tem sido grande.

A Fifa não é a única a identificar que o submundo do futebol movimenta bilhões de dólares. Segundo estudo da Comissão Europeia, em apenas 15 anos as comissões geradas pela venda de jogadores aumentaram em 744%. Em 2011, em plena crise mundial, clubes gastaram 3 bilhões na compra de craques, mais de cem vezes o que o basquete mundial destina às transferências. Em 15 anos, a expansão foi de quase dez vezes.

Em 2002, o brasileiro Ronaldo batia o recorde e passava a ser o jogador mais caro do mundo, vendido por 42 milhões de euros ao Real Madrid. Menos de dez anos depois, Kaká e Cristiano Ronaldo seriam vendidos, cada um deles, por mais de duas vezes o preço de Ronaldo.

A Comissão Europeia vai estudar a abolição de fundos que atuariam como intermediários no futebol e alerta que o sistema está permitindo com que uma transferência de um jogador não ocorra com base em motivos esportivos, mas simplesmente para gerar lucros, já que o fundo apenas ganha quando uma venda é realizada. "Isso, em outro segmento da economia, seria chamado de especulação", aponta a Comissão.

LAVAGEM DE DINHEIRO

Um recente levantamento feito por técnicos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) confirmou que o futebol se tornou nos últimos anos em um dos palcos preferidos para a corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal.

"Os clubes de futebol são vistos por criminosos como veículos perfeitos para a lavagem de dinheiro", alertaram os investigadores. "A lavagem de dinheiro no futebol se revela como sendo mais profunda e mais complexa que se pensava antes", alertou o Grupo de Ação Financeira da OCDE.

Com sede em Paris, o grupo enviou questionários a governos e associações de 25 países, entre eles o Brasil. "Há mais que evidências pontuais indicando que há um risco real de lavagem de dinheiro pelo futebol", afirmaram os investigadores. Segundo o grupo, mais de 20 casos de lavagem de dinheiro foram detectados apenas nesses países em um ano.

A facilidade no uso do futebol para aplicar crimes financeiros seria resultado de quatro fatores: a falta de profissionalismo em muitos clubes, o acesso de qualquer agente à administração do futebol, estruturas complexas de comando de clubes e uma total internacionalização do Esporte. O mecanismo mais comum é o de usar o futebol para integrar no sistema financeiro dinheiro de origem duvidosa e mesmo de corrupção.
http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,futebol-mundial-esconde-r-4-8-bilhoes-em-contratos-de-jogadores,1123645,0.htm

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