quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Escassez argentina

Resenha EB / O Globo / Janaína Figueiredo
29 Jan 2014

Com crise cambial, desabastecimento chega a 46% em mercados. governo ameaça fechar lojas

Buenos Aires. O fantasma do desabastecimento voltou a pairar sobre a Argentina, em meio à delicada crise cambial que provocou a maior desvalorização sofrida pelo peso desde março de 2002. Em reunião com representantes de empresas de diversos setores, entre elas de alimentos e supermercados, o secretário de Comércio Interior, Augusto Costa, sucessor do polêmico Guillermo Moreno, admitiu que, em alguns supermercados, a escassez de produtos alcança 46%, ou quase metade do total. Para provar a denúncia, o secretário mostrou a foto de uma prateleira quase vazia de garrafas de Coca-Cola. A Casa Rosada fez duas exigências aos empresários locais: não repassar a desvalorização (que este mês seria de mais de 20%) aos preços e evitar a falta de produtos. E ameaçou fechar lojas, em "casos extremos".

- O Estado tem várias ferramentas (para controlar o comércio), como multas pelo não cumprimento de acordos (o chamado plano de Preços Cuidados) e, em caso extremo, podemos chegar ao fechamento - declarou o chefe de gabinete, Jorge Capitanich.

Na véspera, o ministro da Economia, Axel Kicillof, acusara alguns comerciantes de "roubar e mentir". Na visão do governo Kirchner, os reajustes de preços dos últimos dias, que em alguns casos chegaram a 30%, não têm justificativa. O diretor executivo da Anses (o INSS argentino), Diego Bossio, acusou ontem as lojas de materiais de construção de terem "aumentado de forma indiscriminada os preços", prejudicando programas habitacionais do governo Kirchner.

- Não vamos permitir que o sonho da casa própria seja prejudicado pela ação de especuladores - acusou Bossio.

Apesar da forte ofensiva oficial, os preços continuam sendo reajustados e produtos começam a faltar. De acordo com Sandra González, presidente da Associação de Defesa de Consumidores e Usuários, em muitos supermercados de Buenos Aires e da Grande Buenos Aires há escassez de laticínios, açúcar e produtos de limpeza, entre outros, o que foi confirmado pela reportagem de O GLOBO.

- O que estamos vivendo é pura especulação, os empresários dizem 'sim' para tudo ao governo nas reuniões e depois fazem o que querem. Quem paga é a sociedade - afirmou Sandra.

Está agendado um encontro do secretário de Comércio Interior com representantes de associações de defesa dos consumidores para amanhã, com o objetivo de obter mais informações sobre a situação do comércio em todo o país.

- O governo já percebeu o que está acontecendo, é uma vergonha. Ontem me disseram que um quilo de pêssego custava 50 pesos e hoje o mesmo quilo está sendo vendido a 65 pesos - disse Sandra.

A queda de braço pelos reajustes teria provocado disputas internas no governo, entre Kicillof e o presidente executivo da petrolífera YPF, Miguel Galuccio. Segundo informações publicadas pela imprensa local, Galuccio pretende aumentar o preço da gasolina, mas o ministro nega de forma taxativa esta possibilidade. Desde dezembro, as ações da YPF acumulam queda de 48%, e a empresa deve financiar com os pesos que arrecada no país as importações em dólar. É a mesma situação complicada que enfrentam muitos empresários locais. Galuccio teria pedido à presidente Cristina Kirchner que dê sinal verde ao aumento da gasolina, mas a chefe de Estado ainda não bateu o martelo.

Com a inflação cada vez mais alta, o mercado cambial se manteve relativamente estável, após as medidas anunciadas na segunda-feira passada por Capitanich. O dólar oficial, ainda controlado através de intervenções do Banco Central - cujas reservas caíram para cerca de US$ 28,8 bilhões (contra US$ 52 bilhões de 2011) - fechou em 8,015 pesos, e o paralelo ficou em 12,25 pesos. Ontem foi mais um dia de poucas operações, já que o sistema da Afip (a Receita local) ainda não está funcionando normalmente, principalmente no caso de operações em bancos privados.

O governo teme que os bancos estejam boicotando as medidas cambiais, e Capitanich os culpou pela baixa venda de dólares aos poupadores. O ministro garantiu que o sistema da Afip funcionou corretamente no primeiro dia da flexibilização cambial, em que foram vendidos apenas US$ 114 mil. Os bancos, por sua vez, argumentaram que ainda não tinham recebido a regulamentação para iniciar as operações, nem seus sistemas de informática estavam prontos para isso.

ATAQUE ESPECULATIVO

A Casa Rosada continua insistindo na teoria de que o país foi vítima de um ataque especulativo semana passada. Segundo o chefe de gabinete, a questão dos "ataques especulativos de mercado" foi discutida pelas presidentes Cristina Kirchner e Dilma Rousseff, em encontro realizado em Cuba, no domingo.

- Não sejamos ingênuos, já vimos muitas vezes este filme ao longo da História - disse Capitanich, reforçando a teoria já defendida publicamente pela própria presidente, que na última segunda-feira acusou os bancos de estarem por trás destes ataques, e pelo ministro da Economia.- Fazem ataques especulativos para, principalmente, comprar ativos desvalorizados em países como a Argentina.

No Brasil, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconheceu que a Argentina passa por uma crise cambial aguda. Segundo ele, o país vizinho também está sofrendo os reflexos da situação na China e nos Estados Unidos.
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