domingo, 26 de janeiro de 2014

Desconfiança com o Brasil é excessiva, diz Mantega

Resenha EB / Estadão.com.br / Fernando Dantas e Fernando Nakagawa
26 Jan 2014

Em Davos, ministro diz que superávit primário, a ser divulgado esta semana, será 'bom' e que crescimento vai voltar

DAVOS - Em entrevista exclusiva à Agência Estado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a desconfiança dos mercados em relação ao Brasil é excessiva: "Os críticos estão exagerando", afirmou o ministro.

Para ele, o Brasil pode crescer 3% em 2014 se a economia global de fato se recuperar, com um novo ciclo de investimentos impulsionado pelas concessões e pelo pré-sal. A fase de baixo crescimento desde o início do governo da presidente Dilma Rousseff, para Mantega, deve-se à segunda fase da crise global, iniciada em 2011, e que atingiu grandes economias emergentes como Brasil, China, Índia, Rússia e México.

Segundo o ministro, o superávit primário de 2013, cujo número final será divulgado esta semana, foi "muito bom", e a recuperação da arrecadação deve garantir um resultado expressivo em 2014. O ministro também defendeu a "nova matriz econômica" do governo Dilma, que vem sendo criticada por economistas à direita e à esquerda. A seguir, trechos da entrevista de Guido Mantega, concedida antes da crise de nervosismo com as moedas latino-americanas, iniciada na sexta-feira:

Como o sr. vê as críticas do mercado à situação atual da economia brasileira?

A desconfiança em relação ao Brasil é excessiva. Os críticos estão exagerando. Tivemos problemas? Tivemos. Enfrentamos dificuldades? Enfrentamos. Mas podemos superá-las. Tivemos problemas de fato por causa da crise global, e também mexemos em interesses, o que desperta críticas. Mas hoje estamos atraindo capitais, fazendo concessões, que são disputadas por sua alta rentabilidade, estamos fazendo road-shows. O ambiente no Brasil é favorável, é amigável. O rumo está dado, são os investimentos em infraestrutura, as concessões, os esforços para melhorar o capital humano.

Quanto o Brasil vai crescer daqui em diante?

Se tivermos uma recuperação da economia internacional podemos crescer em torno de 3%. Se for uma pequena recuperação, um pouco menos, se for boa, um pouco mais. Vamos acelerar. Mas não sei se teremos mão de obra para crescer mais do que 3%, 3,5% neste momento. Estamos fazendo um grande esforço de qualificação, temos investimento em capital físico e em capital humano. Eu vejo o Brasil caminhando para 4%, temos potencial para isso, mas não neste momento, por causa da conjuntura.

Por que a inflação permanece pressionada no Brasil, mesmo com baixo crescimento?

Em 2011, a inflação foi superior à de 2012 e 2013, não pode se dizer que piorou. Há vários fatores que atrapalharam nos últimos anos, e que não necessariamente continuarão presentes. Houve dois ajustes fortes de câmbio. Houve também a pressão das commodities, cujo preço é dado pelo mercado internacional. E a crise atrapalhou a desindexação da economia, que também é importante. Mas não tem pressão de demanda agora, o comércio varejista desacelerou em 2013. Quanto aos preços administrados, temos que nos ajustar à realidade – quando a inflação fica pressionada, segura-se um pouco, todo mundo faz isso. Mas a tendência é que a inflação possa ser mais baixa no futuro, pode reajustar, vai regulando.

A política fiscal vai ser reforçada?

O Brasil é um dos países que têm um dos melhores desempenhos fiscais dos últimos 15 anos. No ano passado, todo mundo dizia que íamos cumprir o fiscal, que seria fraco. E qual foi o resultado do ano passado? O resultado definitivo vai sair na próxima (nesta) semana, será muito bom. Aí dizem, ah, conseguiram fazer o fiscal sem manipulação, mas teve receita extraordinária. Então aí é covardia, é impossível agradar. Alguém se deu conta de que todo ano tem receita extraordinária, que isso é o normal? Por exemplo, a receita extraordinária de tributos que deixamos de arrecadar. Mas criamos as condições para que fossem pagos. Ao fazermos o Refis, limpamos essa área e agora vão começar a pagar. Então vai ter um aumento de arrecadação permanente por conta disso. A receita já emparelhou com a despesa em termos de ritmo de crescimento. Então estamos criando as condições para termos um bom resultado em 2014.

Outra preocupação em relação ao Brasil é o déficit em conta corrente, de 3,7% do PIB.

Sabemos que é passageira essa deterioração das contas externas. Tudo é explicado pela conta petróleo e pela crise internacional, que diminuiu o comércio mundial. Em relação à Petrobrás, o consumo de petróleo e derivados continuou aumentando, porque exportamos menos e importamos mais. Isso dá US$ 18 bilhões. Se não fosse isso, haveria superávit comercial de US$ 24 bilhões a US$ 25 bilhões. A Petrobrás passou por uma fase de ajuste em que a produção ficou estagnada por três anos. Em 2014, a curva de produção da Petrobrás vai para cima. O investimento da Petrobrás é violento, mas demora a dar os frutos. Agora há várias plataformas novas produzindo, e, em 2015, voltaremos a ser fortes exportadores de petróleo e derivados.

Por que o investimento não decolou?

Se não houvesse a crise de 2008 e 2009, o panorama dos investimentos seria bem diferente. Estava indo muito bem, com taxas de crescimento muito fortes, acima de 10%. Não dá para achar que a maior crise do capitalismo nos últimos 80 anos não causa problemas. A economia chinesa, que saiu de um ritmo de 12% para 7,5%, sofreu com a crise. Vai ver a situação da Índia, com problema de balanço de pagamentos, de conta corrente. Mas temos que continuar eliminando gargalos, reduzindo custos e dando oportunidades de crescimento. Se de fato a crise global terminar, como parece estar acontecendo, o investimento vai voltar a crescer e puxar o crescimento brasileiro.

O sr. sempre diz que as críticas dos ortodoxos são injustas. Isso não indicaria que o sr. se considera um ortodoxo mal compreendido?

Nunca fomos ortodoxos. Não se deve confundir solidez fiscal e combate à inflação com ortodoxia. A maioria dos países adotou como prioridade das suas políticas econômicas a seriedade fiscal e monetária. Acho que hoje os governos ortodoxos e heterodoxos utilizam isso. Não está em discussão. O que diferencia um governo ortodoxo e heterodoxo é se, numa crise, se faz política anticíclica ou não. Nós fazemos. Países europeus não fizeram política anticíclica, deixaram a coisa afundar para depois ver se recuperavam. Nós fazemos política industrial, de componente nacional, é o que também nos diferencia dos ortodoxos.

A "nova matriz econômica" da presidente Dilma fracassou?

Antes de responder a isso, gostaria de observar que nunca eliminamos o tripé, isso é uma bobagem. Sempre mantivemos solidez fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante. A nova matriz é composta por juros menores, câmbio mais competitivo e redução tributária. É verdade que o câmbio ficou menos flutuante por causa da guerra cambial. Mas agora aquela conjuntura mudou, com o início do tapering (redução das injeções de liquidez pelo Fed, o banco central norte-americano). Não concordo de jeito nenhum com a ideia de que a nova matriz tenha fracassado. Você tem de se perguntar o que aconteceria se ela não tivesse sido implementada. Eu respondo. A economia brasileira estaria com juros muito mais altos, sem nenhuma chance de recuperação, iria ter crescimento negativo em 2012. Se deixasse o câmbio se valorizar, ia haver a extinção da indústria.
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