sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Desconfiança com a crise da Argentina já respinga no Brasil

O Estado de S.Paulo / Murilo Rodrigues Alves e João Villaverde
30 de janeiro de 2014 | 2h 06

Governo nega riscos, mas papel que serve como seguro contra eventual calote do País subiu 10,88% nos últimos dias

BRASÍLIA - A crise cambial da Argentina deteriorou ainda mais as expectativas de investidores em relação ao Brasil. Nos últimos dias, houve forte elevação dos Credit Default Swaps (CDS), um tipo de papel que serve como "seguro" contra eventual calote do País e é usado como termômetro da confiança do mercado. Somente no mês de janeiro, o CDS de referência que vence em 5 anos subiu 10,88%.

Na visão do governo, uma piora desse indicador era "razoavelmente natural e esperada", dada a integração econômica entre Brasil e Argentina. No entanto, a equipe econômica avalia que os riscos são mínimos.

O sinal de aperto fiscal, aguardado com ansiedade pelo mercado financeiro, será dado em fevereiro, e isso, aliado a uma melhora do saldo comercial esperada para este ano, deve "dissociar" o Brasil do país vizinho, segundo fontes do governo.

A grande aposta da equipe econômica é o avanço da produção e refino de petróleo, o que diminuiria a importações de combustíveis e derivados.

Embora especialistas consideram que os investidores estrangeiros já consigam diferenciar o Brasil do país vizinho, no tendimento do mercado a piora cambial na Argentina afetará as exportações brasileiras de produtos com alto valor agregado.

Consequentemente, a balança comercial brasileira pode não ajudar a financiar o rombo externo - da mesma forma como ocorreu em 2013, ano em que foi registrado o pior déficit da história: R$ 81,4 bilhões.

"A piora na Argentina sinaliza um desempenho ruim para a indústria automobilística brasileira. Todos apostavam numa redução do déficit este ano. Pode ser que esse contágio impeça essa possibilidade", diz Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.

Pessôa lembra que o movimento de elevação da cotação do CDS do Brasil na comparação com países latino-americanos começou em outubro do ano passado, com a divulgação de dados ruins da própria economia brasileira: um superávit primário menor do que o mercado esperava. "Esse fato detonou um processo de reclassificação dos ativos", diz ele.

Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual, "por bem ou por mal" a Argentina está fora do cenário global de investimentos há muito tempo, mas qualquer notícia no país vizinho modifica um pouco a percepção dos investidores com o conjunto dos latinos.
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,desconfianca-com-a-crise-da-argentina-ja-respinga-no-brasil,1124664,0.htm

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