quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A revolução brasileira do gás natural; sonho ou realidade?

Resenha EB / Valor Econômico / Rodrigo Rueda Terrazas
15 Jan 2014

A atual e indiscutível revolução do gás natural nos EUA, intitulada "Época de Ouro do Gás" pela Agência de Energia Internacional no seu relatório especial sobre o tema, prevê, de acordo com diversas projeções, que os EUA poderão se tornar autossuficiente em termos energéticos em torno do ano 2030 e exportador de gás em 2020. Isso tem levado o preço do gás natural dos EUA a patamares inferiores aos níveis de qualquer projeção anterior, reestruturando seu atual mercado de gás doméstico e o foco dos seus investimentos, chegando a converter plantas originalmente construídas para receber gás importado a plantas para exportá-lo. Em detrimento disso, o fluxo do comércio de gás mundial via gás natural liquefeito - GNL (LNG em inglês), que até então sempre contou com o respaldo dos EUA como âncora do mercado em termos de consumo, passa a ser profundamente reformulado.

Em paralelo, o Brasil, que algum dia já teve mais destaque como futuro polo de produção de petróleo pelo pré-sal, tem conquistado novamente a atenção das grandes operadoras estrangeiras para seu investimento graças às recentes rodadas licitatórias de 2013 após um jejum de cinco anos sem rodadas, tendo inclusive pela primeira vez um leilão dedicado exclusivamente à exploração onshore de gás natural, incluindo fontes não convencionais. Esta aguardada "rodada do gás" que ofereceu mais de 240 blocos em sete bacias, esperava ser a carta de entrada para a exploração futura do gás xisto (corretamente chamado de "gás de folhelho") no Brasil, porém seus resultados foram um tanto abaixo do esperado, o que leva a uma importante questão que precisa ser estudada: algum dia o Brasil poderá também vivenciar a sua própria revolução do gás?

Para obter esta resposta é preciso avaliar dpos pontos: primeiro, deve se analisar e avaliar o papel que o gás natural de fato compreende neste momento no Brasil e como ele pode mudar, considerando como principal vetor de inclusão a geração térmica. Esta irá afetar sua oferta e demanda, que irão definir a facilidade e sucesso de tal "revolução" no Brasil, assim como o seu preço, o que poderá ajudar ou frear tal processo. E segundo, analisar se a sua infraestrutura - seja ela direcionada para a exploração, produção ou distribuição - o nível de abertura do mercado, e seu marco regulatório, poderiam permitir de fato tal revolução no seu estado atual.

Vamos ver se esse interesse é forte o suficiente para poder ultrapassar as fortes barreiras que restam

Sobre a geração térmica à base de gás natural deve se considerar que a tendência de construir reservatórios nas usina hidrelétricas cada vez mais a fio da água tem diminuído a segurança operacional do sistema, tornando-o mais dependente de fatores climáticos e fortalecendo a presença cada vez maior das usinas térmicas movidas a gás natural. Isto tem requerido uma oferta maior de gás que, hoje em dia não é suficiente, com só 52% vindo da produção nacional e 36% de importações da Bolívia, obrigando o governo a importar o restante via GNL a custos muito mais elevados.

Este fator é um dos mais decisivos para a criação de um ambiente próspero para uma futura "revolução", já que, de acordo com projeções privadas e públicas, o gás natural só terá uma oferta superior à demanda a partir de 2015, e mesmo assim tal excedente de gás disponível deve vir de uma oferta flexível, não de uma fixa. Vê-se então urgente e vital a necessidade de aumentar a oferta, e apesar do governo ter expandido a atual capacidade de re-gasificação de GNL, isto não é uma solução desejada ao longo prazo já que traz custos muito mais elevados do gás. É por isto que um aumento da produção de gás torna-se a solução preferencial, porém incerta.

Mesmo com o aumento da produção offshore, seria uma futura produção de gás natural onshore, inclusive de fontes não convencionais como shale gas e outros, que poderia ter seu maior nicho de crescimento. Com uma demanda garantida, uma oferta a futuro se tornaria muito mais viável e interessante em termos de investimentos.

Com uma demanda garantida de gás para o futuro, o que vai determinar o sucesso de uma "revolução do gás" no Brasil será a consolidação da produção do gás no ritmo necessário e em quantidade suficiente para sustentá-la. Porém, mesmo apesar da recente e muito esperada rodada do gás natural, este gás só entrará no mercado em um prazo de pelo menos oito anos, após todas as suas etapas de exploração e teste cumpridas, e é nesta etapa que surgem as maiores incertezas.

Uma grande parte do eventual sucesso da revolução do gás nos EUA se deu graças a três elementos críticos, os quais não existem no Brasil neste momento. Primeiro, em termos logísticos, os EUA tinham um excesso de sondas de perfuração terrestres disponíveis, o que não ocorre no Brasil. Segundo, os Estados Unidos já contavam com um mercado aberto, altamente desenvolvido, com uma malha de distribuição e transporte de gás incrivelmente complexa e extensa. No Brasil, embora apresente crescimento constante e significativo, ainda é em grande parte monopolizada por poucas grandes empresas. E, diferente do que o marco regulatório permitiria, na prática este mercado não é capaz de ter um modelo realmente aberto/livre.

E terceiro, os players. É importante lembrar que os pioneiros do shale gas nos Estados Unidos foram as pequenas e médias empresas, graças a uma facilidade da obtenção dos direitos de exploração de áreas, que são negociadas diretamente com seus proprietários privados. É que de acordo com a legislação americana, eles são os donos dos recursos que nelas se encontram, diferente do que ocorre no Brasil, onde a União é a dona dos recursos naturais. Por outro lado, o Brasil, além de ter um regime diferente e mais burocrático, ainda carece de uma legislação madura de exploração de fontes não convencionais, além de sofrer da escassez de pequenas e medias empresas para um aumento da exploração no curto prazo. Nestas condições, o país se expõe ao risco de manter o mercado restrito a grandes players e empresas, bloqueando a abertura do mercado de gás, deixando-o sob o controle de poucas empresas.

Se estes fatores poderão ser adaptados no Brasil, ainda é incerto afirmar. No entanto, é evidente que tanto o potencial quanto o interesse existem, ainda que isto demande um forte desenvolvimento do atual marco regulatório, infraestrutura, mercado e produção para se tornar uma realidade. Certamente a aguardada rodada do gás natural é uma forte e firme carta de entrada e demonstra claramente o interesse do governo e do setor privado no setor, porém, cabe ver se esse interesse é forte o suficiente para poder ultrapassar as fortes barreiras que ainda lhe restam.

Rodrigo Rueda Terrazas é engenheiro de petróleo da SPE (Society of Petroleum Engineers).
http://www.eb.mil.br/web/imprensa/resenha?p_p_id=56&p_p_lifecycle=0&p_p_state=maximized&p_p_mode=view&p_p_col_id=column-3&p_p_col_count=1&_56_groupId=18107&_56_articleId=4329380&_56_returnToFullPageURL=http%3A%2F%2Fwww.eb.mil.br%2Fweb%2Fimprensa%2Fresenha%3Fp_auth%3Dk3Q4vHce%26p_p_id%3Darquivonoticias_WAR_arquivonoticiasportlet_INSTANCE_UL0d%26p_p_lifecycle%3D1%26p_p_state%3Dnormal%26p_p_mode%3Dview%26p_p_col_id%3Dcolumn-3%26p_p_col_count%3D1%26_arquivonoticias_WAR_arquivonoticiasportlet_INSTANCE_UL0d_mes%3D1%26_arquivonoticias_WAR_arquivonoticiasportlet_INSTANCE_UL0d_ano%3D2014%26_arquivonoticias_WAR_arquivonoticiasportlet_INSTANCE_UL0d_data%3D15012014%26_arquivonoticias_WAR_arquivonoticiasportlet_INSTANCE_UL0d_javax.portlet.action%3DdoSearch

Nenhum comentário: