sábado, 21 de dezembro de 2013

Os vizinhos

Resenha EB / Correio Braziliense / André Gustavo Stumpf
21 Dez 2013

O ministro Guido Mantega procura ser simpático. Faz previsões que jamais se cumprem. Mas, justiça seja feita, ele tenta. Reitera. E faz a aposta subsequente. Usualmente equivocada, mas isso já é outra história. Agora ele afirma que, em 2014, o Brasil deverá ter crescimento do Produto Interno Bruto acima de 2,5%. Essa estimativa é perigosa, já que ele não acertou em nenhuma das anteriores. Agora reduziu as próprias expectativas. Não devemos esperar muito de 2014 no campo da economia.

Mas é necessário ser justo. Ele é apenas a face mais visível do que acontece no Brasil. O poderoso The New York Times publicou editorial, em outubro de 2013, que lamenta a falta de investimentos públicos e privados na infraestrutura brasileira. Essa seria a justificativa para o baixo crescimento. Se confirmadas as projeções para 2013, a economia brasileira terá crescimento médio de 2% nos três primeiros anos desta década. Esse número revela forte desaceleração em relação ao período de 2004 a 2010, época em que o país viveu momento mais favorável nas últimas décadas: expansão média de 4,5%.

Economistas têm palavreado difícil. Denso, confuso e às vezes incompreensível. É fácil culpar a crise externa. Ela não aconteceu de um dia para o outro. Produziu a nuvem, que virou tempestade, depois furacão, terremoto e tsunami. O euro quase virou história, mas os países europeus estão lentamente se levantando. E a indústria norte-americana também está saindo do buraco. O desemprego, que há um ano estava em 10%, agora está na casa de 6,5%. O mundo não acabou. A Europa não se desintegrou nem os Estados Unidos se esfacelaram. As coisas estão entrando nos eixos lá fora. Aqui, não.

A lenta recuperação do mercado internacional deveria causar impacto semelhante em toda a América Latina. Afinal de contas, os problemas são os mesmos. Mas não foi isso que aconteceu. Previsões do Fundo Monetário Internacional informam que a crise provocou pequeno impacto nos países latinos. O crescimento médio da economia na região recuou de 4,4% para 4,1%, entre 2004 e 2011. A redução do crescimento econômico nacional é reflexo, portanto, dos problemas nacionais. Até 2010 o Brasil cresceu acima do resto da América Latina. Nos últimos três anos, ao contrário, os números nacionais ficaram dois pontos abaixo das principais economias da região, exceção para a Venezuela, que sofre com os dogmas do chavismo.

Os integrantes da Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru) saíram do crescimento médio de 3,5% entre 2004 e 2010 para 3,9% nos últimos três anos. Algumas características nos separam deles. A principal delas é a inflação. O fenômeno foi mais elevado no Brasil do que naqueles países. No período de 2004 a 2010, o Brasil teve inflação média de 5,3%, enquanto, nos vizinhos do Pacífico, o índice ficou em 4,2%. Em anos recentes, a média daqueles países se reduziu para 3,5%; no Brasil, pulou para 6,1%. Inflação produz incerteza, diminui o horizonte de planejamento, corrói a confiança, destrói reputações e gera ambiente adverso ao investimento.

Os três candidatos assumidos para a disputa à Presidência da República devem ter clareza de seus objetivos para poder arregimentar correligionários e votos. Não existem problemas estruturais no Brasil. Existe burocracia em excesso, corrupção instalada em vários níveis e planejamento inadequado. Exemplos são abundantes, se revelam dia a dia nos jornais — além dos eternos problemas com educação, saúde e segurança. Melhorando uns, os outros encontram seu espaço e suas próprias soluções. As diferenças entre ideologias estão pouco nítidas. Ninguém mais é contra a concessão ou a privatização. Virou moda. Então, é só fazer.

Os números manejados por institutos e organizações internacionais demonstram que a América Latina não está fora do circuito de países aptos para o desenvolvimento. Ao contrário. O Brasil que tenta solucionar seus problemas por caminhos heterodoxos não obtém resultados sequer assemelhados aos de países como Peru ou Colômbia. A América Latina não está condenada a ser marginal no processo econômico mundial. O ano de 2014 será muito difícil, já disse aqui mesmo. Mas sempre haverá espaço para bom senso e medidas sensatas. Não basta tentar adivinhar o futuro, é preciso construí-lo dia a dia, tijolo a tijolo. E sem nenhuma arrogância. Um passo atrás do outro.
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