domingo, 15 de dezembro de 2013

Obama e a América Latina

O Estado de S.Paulo / MIAMI HERALD / ANDRES, OPPENHEIMER
15 de dezembro de 2013 | 2h 06

O programa de intercâmbio estudantil dos EUA, até agora a única iniciativa do governo americano para a região, corre risco de não cumprir suas metas

Quando perguntei ao secretário de Estado John Kerry porque o governo de Barack Obama tem prestado tão pouca atenção à América Latina, ele contestou meu questionamento, mas admitiu que a maior iniciativa americana na região - um amplo programa de intercâmbio estudantil - está atrasada.

Numa longa entrevista que Kerry me concedeu para o jornal Miami Herald e para o Oppenheimer Presenta, programa da CNN em espanhol, ele também rejeitou críticas de que ele próprio visitou muito pouco a região.

De acordo com o website do Departamento de Estado, Kerry realizou 19 viagens ao exterior desde fevereiro, quando assumiu o cargo, mas somente duas foram para a América Latina.

Ele visitou 36 países na qualidade de secretário de Estado, mas não foi ainda ao México, país que, por diversas razões - incluindo comércio, imigração, drogas, energia e meio ambiente - é uma das mais importantes parcerias dos EUA em todo o mundo.

Indagado a respeito, Kerry disse que aqueles que interpretam o fato como sinal de pouco interesse na região estão completamente errados. E acrescentou que uma das razões pelas quais ele fez apenas duas viagens para a América Latina é que os EUA têm uma relação bastante forte com a região, que vem atuando, segundo Kerry, de modo bastante eficiente.

Kerry explicou que precisou se ocupar de crises no Irã e na Síria, entre outros problemas. "Houve muita agitação nessa outra parte do mundo, onde tivemos de gerir algumas crises imediatas", afirmou.

Ele destacou sua visita ao Brasil e à Colômbia e disse que cancelou uma visita marcada ao México em razão de uma emergência. "No entanto, essa viagem está dentro dos nossos planos."

Quanto a um assunto mais importante, ou seja, se o governo Obama adotou um enfoque político ambicioso com relação à América Latina, Kerry observou que o país possui 12 acordos de livre comércio com países da região, incluindo um com México e outro com o Canadá.

Embora tenha enfatizado o fato de Washington já possuir vínculos comerciais muito dinâmicos com a América Latina, Kerry sugeriu que esses acordos separados podem ser fortalecidos e expandidos.

O secretário reconheceu, no entanto, que a iniciativa mais ambiciosa do governo na região, o programa 100 mil Unidos pelas Américas - que pretende dobrar o número de estudantes de intercâmbio entre EUA e América Latina até 2020 -, sofreu atrasos.

"Não é neste ponto que gostaríamos de estar", afirmou Kerry, referindo-se ao fato de que há 67 mil estudantes latino-americanos em faculdades americanas e 45 mil estudantes americanos em faculdades latino-americanas. "Queremos mais. Temos de dobrar esse número para cumprir a meta do presidente Obama", afirmou.

De acordo com um recente relatório do Departamento de Estado, o número de estudantes asiáticos vindos da China, Índia e Coreia do Sul para estudar em faculdades americanas cresce muito mais rápido do que o de latino-americanos.

Há 490 mil estudantes asiáticos em faculdades americanas - número que aumentou 7,3% no ano passado -, em comparação com os 67 mil estudantes latino-americanos nos EUA, cujo aumento, em 2012, foi de apenas 3,8%, segundo o relatório.

Kerry afirmou que a implementação do programa, anunciado por Obama há dois anos, demorou algum tempo porque trata-se de um esforço cooperativo complexo entre o setor privado e as universidades. O Departamento de Estado vem levantando recursos com empresas multinacionais e fundações para financiar a iniciativa.

Segundo assessores de Kerry, o programa 100 mil Unidos pelas Américas terá um forte impulso em janeiro, quando a Alianza, organização criada recentemente, começará a conceder suas primeiras bolsas para faculdades em toda a região com o objetivo de acelerar os intercâmbios.

As bolsas concedidas, entre US$ 25 mil e US$70 mil, não irão diretamente para os estudantes, mas para as faculdades que começarem a participar dos intercâmbios ou que desejarem aumentar sua atuação. A Alianza é uma instituição privada patrocinada pelo Departamento de Estado e destinada a facilitar a mobilidade dos estudantes na região.

Cerca de 240 faculdades de todas as Américas já se inscreveram para receber essas bolsas e quase a metade delas está na América Latina. Na minha opinião, Kerry pode ter razão quando afirma que não viajou muito para a América Latina porque teve de administrar crises internacionais urgentes em outros lugares.

No entanto, se ele deseja que acreditemos que o governo vem empreendendo uma política dinâmica no tocante à América Latina, deve pelo menos dar um empurrão extra ao programa de intercâmbio estudantil.

Está na hora de o próprio presidente se envolver e vir a público pedir às empresas e fundações dos EUA que contribuam para este projeto. Do contrário, a mais importante iniciativa do governo Obama na região - alguns diriam que é a única - não cumprirá seu objetivo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,obama-e-a-america-latina-,1108757,0.htm

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