terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Educação em 1º lugar

Resenha EB / O Globo / Cássia Almeida, Cristiane Bonfanti, Flávia Ilha, Letícia Lins, Roberta Scrivano e Victor Furtado*
17 Dez 2013

Prioridade nos lares, estudo exige gastos e esforços como andar no escuro oú deixar de ver os filhos

RIO, BRASÍLIA, PORTO ALEGRE, RECIFE, SÃO PAULO e BELÉM- Prioridade tem nome nas famílias brasileiras: educação. Nos sete lares acompanhados pelo GLOBO durante este ano, os sacrifícios assumidos para alcançar esse objetivo são imensos. Desde ver a filha apenas aos finais de semana a andar no escuro no meio do agreste pernambucano, sem falar nos gastos. No terceiro dia da série de reportagens sobre o impacto das mudanças na economia no cotidiano das famílias brasileiras, chama atenção os esforços empreendidos para conseguir estudar e, assim, ter ganhos profissionais ou tentar um futuro melhor.

A agricultora Ivanilda Maria da Silva, que mora em São Caetano, no agreste pernambucano está matriculada no EJA — Educação de Jovens e Adultos. Cursa a quinta e a sexta séries na Escola Municipal Camilo Pereira Carneiro, onde divide a sala com 25 colegas. Vaidosa, apronta-se para ir ao colégio: usa batom, passa lápis nos imensos olhos verdes, põe bijuterias. Ao anoitecer, despede-se do marido, anda 800 metros no meio da caatinga e espera o ônibus escolar numa estrada escura e poeirenta. São mais dez quilômetros de caminho esburacado, percurso que dura de 30 a 40 minutos, dependendo da condição da "rodovia". Na cidade de São Caetano — a 153 quilômetros do Recife — ela ainda caminha mais 15 minutos, até chegar ao colégio, de onde sai entre 22h e 22h30m. No retomo, segue pela estrada escura, com a ajuda de uma lanterna e da cadela Lupita. Religiosamente, o animal a aguarda no ponto do ônibus:

— É muita dificuldade. A gente pilota o fogão, cuida dos bichos, da lavoura, mas tenho mais é que comemorar o fato de estar na escola. Estou dando um exemplo para os filhos e recuperando aquilo que não tive na infância.

DIARISTA QUER ENTRAR NA FACULDADE ANTES DOS 50

Ivanilda espera um dia chegar à universidade, mas essa ainda é uma realidade distante. Por enquanto, Ivanilda acorda às cinco, quando prepara "o café da turma" (marido, dois filhos e enteado). Lava os pratos no balde (não tem água encanada) e segue para o campo. Dependendo do sol, trabalha até meio dia e alimenta o gado com o companheiro João Torres. Em casa, prepara o almoço da família. De tarde, vai de novo ao curral e recolhe as cabras que se alimentam soltas na caatinga. Ainda aproveita para dar "uma limpadinha" no mato do roçado. Retorna à casa, prepara o jantar e e se arruma para a escola.

— Às 17h40 saio para a escola, porque o ônibus passa entre 18hl0m e 18h30m — diz.

Em São Paulo, a rotina é diferente, mas igualmente pesada. Vanessa lima não vê a filha acordada durante a semana. Consegue dormir apenas quatro horas por noite, para conseguir terminar este ano a faculdade de Administração. O estudo tira horas de sono e R$ 500 do orçamento doméstico. No ano que vem, a situação financeira ficará mais folgada, mas apenas num primeiro momento. O marido Marcos Roberto, gestor de produção de uma indústria de autopeças, vai começar a faculdade.

— Também vou cursar Administração, porque quero ganhar mais — diz Marcos.

Para a professora da Universidade Federal de Pernambuco Tatiana Menezes, o problema está na falta de investimentos para aumentar a produtividade do trabalhador.:

— Os governos só pensam em aumentar o PIB (Produto Interno Bruto, conjunto de bens e serviços produzidos no país). Vieram indústrias para Recife, mas estão trazendo pessoal de fora, pois a mão de obra daqui não tem formação.

A diarista Solange Moraes, que mora em Duque de Caxias, no Rio, tem um objetivo: quer entrar no ano que vem na faculdade de Engenharia Química na UFRJ. Aos 48 anos, completou o ensino médio em 2009. Para ela, a educação é o mais importante bem que pode deixar para os nove filhos. Eles não entraram na faculdade e isso a decepcionou:

— Depois vi que esse sonho era meu também. Estava focando nos meus filhos o meu sonho.

Solange diminuiu o número de casas em que trabalhava para fazer cursos dos mais diversos. Estudou inglês, espanhol e até um curso técnico na área de química — todos gratuitos. Chegou a ganhar um bolsa parcial para um curso na área de petróleo e gás pelo Sisutec (Sistema de Seleção Unificada da Educação Profissional e Tecnológica). Mas a vaga era para Campos, Norte Fluminense. Este ano, fez o Enem de novo. Espera ansiosa o resultado.

— Quero entrar na faculdade até os 50 anos.

Dos nove filhos de Solange, quatro moram com ela. Lucas, de 18 anos, está cursando o oitavo ano do ensino fundamental à noite, depois do trabalho numa marcenaria no Méier. Ele parou de estudar um ano e repetiu outro, o que explica o atraso na escola. Lucas sai de casa às 5h30m para trabalhar e está na escola às 19h. Na sua opinião, o trabalho não atrapalha o estudo.

O orçamento já apertado da família do professor de Redação e Literatura da rede pública estadual do Pará Jafíre Moraes, e de sua mulher Edinete Veras, agente administrativa, ficou ainda mais curto. A renda da família de Belém é de R$ 4.700. O filho mais velho Vithor, de 16 anos, repetiu ano. Para melhorar o desempenho do adolescente, a família resolveu gastar mais. Vithor trocou de escola e a mensalidade subiu de R$ 350 para R$ 400. E, agora, o adolescente ainda conta com a ajuda de um professor particular.

Em Porto Alegre, o esforço da educação ficou com a mãe. Kátia Duarte, merendeira em uma escola, terminou o magistério e poderá, finalmente, ser habilitada a trabalhar com crianças até o quinto ano do ensino fundamental. Trabalhando desde os 13 anos, Kátia ficou 11 anos sem estudar até se decidir — vencendo a resistência do marido — pelo magistério. Foram três anos e meio de curso:

A partir de agora vou investir na carreira. Já recebi proposta para trabalhar como professora e pretendo cursar pedagogia, para seguir melhorando. Quero ser um exemplo para meus filhos.

Mas o filho David, de 21 anos, parou de estudar na oitava série do ensino fundamental. Faz pequenos trabalhos de servente de obra, mas pretende terminar o ensino médio e estudar outros idiomas:

— Trabalho de servente não é para sempre.

*Especial para O GLOBO
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