sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Depois da festa

Resenha EB / Valor Econômico / Guilherme Meirelles
20 Dez 2013

É possível afirmar com boa margem de segurança que no dia 13 de julho do próximo ano cerca de 78 mil pessoas estarão confortavelmente instaladas no Maracanã para presenciar a final da 20ª edição da Copa do Mundo. Passada a festa, o que poucos se arriscam a prever é como será o futuro das 12 arenas que irão sediar as 64 partidas a partir do dia 12 de junho, com o jogo de abertura entre Brasil e Croácia, no Itaquerão, em São Paulo. Estudo preparado com exclusividade para o Valor pela consultoria BDO Brazil aponta um quadro preocupante com relação à viabilidade econômica das novas arenas sob uma perspectiva de baixo crescimento econômico e o alto custo na construção dos palcos esportivos.

De acordo com o estudo "Produto Arena", o custo médio por assento das 12 arenas fica próximo a R$ 13 mil, valor superior ao registrado nas Copas da Alemanha e África do Sul, que ficaram em R$ 7.145 e R$ 8 mil, respectivamente. Para que se mantenham economicamente viáveis nos próximos anos é preciso que haja um rigoroso planejamento estratégico dentro de um modelo de gestão ainda hoje não colocado em prática pela esmagadora maioria dos clubes e dos governos estaduais responsáveis pelas arenas.

De acordo com dados do Ministério do Esporte, os investimentos na construção, reconstrução e reforma das arenas são de R$ 8 bilhões, dos quais R$ 3,9 bilhões por meio de financiamentos. As obras foram formatadas sob um conceito multiuso, com camarotes, áreas diferenciadas, restaurante, bares e obras viárias e de infraestrutura que permitam mobilidade em seu entorno.

Embora seis das futuras arenas (Itaquerão, Beira Rio, Arena Pantanal, Arena da Baixada, Arena das Dunas e Arena da Amazônia) ainda não tenham sido entregues, já é possível detectar uma significativa alta no preço médio dos ingressos em comparação aos cobrados nos estádios tradicionais. Segundo o estudo da BDO, o tíquete médio das arenas utilizadas durante o Campeonato Brasileiro de 2013 (Maracanã, Mineirão, Mané Garrincha, Arena Pernambuco, Fonte Nova e Castelão, além da Arena do Grêmio, que não será usada na Copa) foi de R$ 41,25 ante R$ 21,70 dos estádios tradicionais.

Para Pedro Daniel, da área esporte total da BDO, os altos preços são uma decorrência dos serviços agregados, o que acaba gerando um aumento de gastos sem que haja proporcionalmente um crescimento de público. Entre 2004 e 2013, o tíquete médio do Campeonato Brasileiro passou de R$ 9,41 para R$ 31,07, alta de 241%. Porém, o salto mais significativo ocorreu entre 2012 e 2013, quando o tíquete médio subiu 30%, fruto da entrada das novas arenas no circuito. No mesmo período (2004-2013), o público presente aos estádios nos jogos do Brasileirão cresceu apenas 62%, sendo que o total de espectadores em 2013 foi de 5,7 milhões de torcedores, contingente inferior ao campeonato de 2009, que registrou presença de 6,8 milhões de pessoas. O público médio em 2013 foi de 14.955 pessoas, número 15% superior ao registrado em 2012, mas inferior à média de anos anteriores, casos dos campeonatos de 2007, 2008 e 2009.

Daniel atribui o crescimento de 2013 a uma demanda reprimida em capitais que não estavam habituadas a receber grandes jogos. Foi o caso da Arena Mané Garrincha, em Brasília, na partida de abertura entre Santos e Flamengo, que recebeu 64 mil pessoas, o que proporcionou um recorde de arrecadação de R$ 6,94 milhões. Os ingressos variaram entre R$ 160 e R$ 400. Em todo o campeonato, as seis arenas foram responsáveis por sete dos dez maiores públicos - a exceção foi o Morumbi, com três partidas.

Daniel aposta no fator "novidade", que deve perdurar ainda ao longo de 2014 com a inauguração das restantes. A grande dúvida será com relação aos anos seguintes. Segundo Daniel, com base em outros países, o custo de uma arena é amortizado entre 15 e 20 anos, levando-se em conta a utilização não apenas em jogos de futebol mas também em atividades culturais e corporativas, conforme o perfil da cidade. "Algumas arenas não deverão ter problemas em buscar fontes alternativas de renda, principalmente se conseguirem fechar contratos de 'naming rights' com grandes corporações", afirma.

Modelo comum em países como Alemanha e EUA, o acordo de "naming rights", que permite que uma empresa associe sua marca ao estádio, ainda patina no Brasil. Até o momento, apenas o Palmeiras fechou contrato com a Allianz para sua futura arena e a cervejaria Itaipava na Fonte Nova e na Arena Pernambuco, mas como não é patrocinadora só poderá usar a nova denominação após a Copa do Mundo. Daniel diz que algumas arenas podem enfrentar resistência por terem um nome enraizado na memória do torcedor. "Mas os dirigentes devem diminuir seus receios quando concluírem que os contratos são bons para todas as partes. A maior dificuldade está na ativação do patrocínio, ou seja, na forma como ele deve ser utilizado como uma ferramenta de relacionamento da empresa com os torcedores, que serão os consumidores do produto", afirma.

Dentro deste raciocínio, arenas situadas em grandes polos econômicos com clubes fortes na Série A são potencialmente mais atrativas. Mas, como deve ser a gestão de arenas situadas em capitais mais afastadas do fluxo turístico e de negócios? Partindo do princípio que os custos fixos anuais representam em torno de 5% do custo de construção, Daniel coloca em dúvida a viabilidade econômica das arenas de Manaus e Cuiabá, ambas sem clubes de tradição e amparadas com injeção de recursos públicos. "A saída pode ser a realização de clássicos com grandes clubes, a exemplo de Brasília, ou também grandes eventos que fujam ao futebol. Mas há a questão da distância, que encarece os custos".

A solução mais imediata por parte dos governos estaduais seria a formação de Parceria Público Privada. "Mas ela só se torna viável se houver um plano de estratégia que garanta o retorno do investimento em forma de lucro."

Otimista quanto à sustentabilidade econômica das arenas, Luis Fernandes, secretário executivo do Ministério do Esporte, acredita que a vocação natural de cada cidade acabará gerando oportunidades para a ocupação dos espaços esportivos. "Manaus tem potencial para atrair turistas e Cuiabá é hoje a capital do agronegócio, com taxas chinesas de crescimento urbano", afirma. Ele cita ainda o caso de Natal, que não possui clubes na Série A, mas conta com rivalidade regional entre os times da capital.
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