segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Como explicar os saques na argentina

Resenha EB / O Globo / Fernando Laborda
16 Dez 2013

A onda de saques iniciada nos primeiros dias do mês na província de Córdoba e estendida depois a vários pontos do país mostrou o pior da sociedade e provocou surpresa por não ter como alvo apenas os grandes supermercados, mas também pequenos comércios e até residências particulares. Eis algumas razões que explicam o que está por trás dessas ações, além da greve por melhores salários das polícias provinciais:

1. Os saques se registram num país onde há tempo demais a anomia vem se impondo sobre a lei e a ordem pública e onde as forças de segurança pouco fazem frente a piquetes e bloqueio de rodovias; mas onde uma mensagem oficial associada à confrontação permanente e à divisão potencializou o ódio e o ressentimento em alguns setores da sociedade. Quando alguém dimensiona os escândalos de corrupção governamental que ficam impunes também pode pensar que os saqueadores não devem ser castigados.

2. O diagnóstico particular do governo Cristina Kirchner sobre a inflação também pode ajudar a explicar os saques. A explicação oficial indica que os aumentos de preços não são causados pelo cada vez mais elevado déficit fiscal do Estado, financiado com emissão monetária, mas exclusivamente porque alguns agentes econômicos buscam maximizar seus lucros. Em função disso, alguns grupos da sociedade podem tender a crer que, como a inflação é produzida por comerciantes inescrupulosos, que poderiam ser equiparados a saqueadores, está justificado saquear um saqueador. A velha máxima "Quem rouba um ladrão tem cem anos de perdão" pode ser empregada para legitimar a ação ilegal de quem assalta lojas.

3. O terceiro elemento é a crescente sensação de impunidade. Quando se escuta que alguém denunciou à Justiça que o vice-presidente Amado Boudou queria "roubar uma empresa", como a gráfica Ciccone, e quando vê que nenhum funcionário é preso por atos manifestamente ilícitos, também pode pensar que deveriam ficar livres de sanção os saques, inclusive quando cometidos por pessoas que estão longe de ter fome.

4. Os saques também podem ser explicados pela proliferação de uma cultura populista da dádiva e da sinecura impulsionada pelo governo kirchnerista e por diferentes governos provinciais. Quando começam a se esgotar os recursos do Estado e alguns setores ficam subitamente excluídos dos benefícios das políticas clientelistas, esses grupos automaticamente se consideram no direito de saquear o comércio para compensar os benefícios perdidos com a retirada do Estado.

5. Outro dado que ajuda a entender o ocorrido é a falta de perspectivas de muita gente de condição humilde, que, mesmo que tendo acesso às necessidades básicas, se lança a arrebatar o que encontra pela frente. Não faz muito tempo, o pároco de uma comunidade carente contou que, quando perguntava às crianças o que desejavam ser quando crescer, muitos respondiam que gostariam de ser piqueteiros. É provável que um ou outro respondesse que queria ser narcotraficante. Nos últimos anos, a inserção do tráfico em diferentes povoados humildes de boa parte do país é tão grande que o fenômeno está modificando os hábitos de conduta de todos os habitantes. Um informe apresentado por Sebastián García Días, ex-secretário da Luta contra o Narcotráfico de Córdoba, indicou a existência de cerca de 2.500 pontos de venda de drogas somente na capital da província. Isto equivale a 2.500 famílias que vivem da venda de drogas ilegais. Só essas 2.500 famílias, se se lançarem às ruas, podem gerar o caos em uma única noite.
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